damadofogo_livroNove entre dez amantes de um bom RPG já pensaram em, algum dia, escrever um livro. O gosto por boas histórias na maioria das vezes leva as pessoas a quererem criar suas próprias aventuras e compartilhá-las com o mundo. E foi exatamente isso o que aconteceu com o paulista Marcelo Paschoalin. Autor do jogo de RPG Maker “A Última Dama do Fogo”, ele conseguiu levar a saga de sua protagonista para as estantes de todo o Brasil no livro de mesmo nome, lançado neste mês pela editora LeiaSempre.

O lançamento oficial será na segunda que vem, dia 22, às 19:00h, no Bar Balcão – Rua Dr. Melo Alves 150, São Paulo-SP. O autor estará presente para autografar livros e todos estão convidados a comparecer.

Eu fiquei muito curioso para saber mais sobre o autor e descobrir como o tal joguinho de RPG Maker (que é uma ferramenta para a criação de RPGs com jeitão retrô) virou um livro. Mandei um email para o Marcelo e ele gentilmente nos concedeu esta pequena entrevista.

Quem quiser ficar por dentro das últimas novidades sobre o livro pode conferir os seguintes links:

* * *

Gagá Games: Para começar, conte um pouco sobre você e seu novo romance, “A Última Dama do Fogo”.

Marcelo Paschoalin: Antes de responder, permita-me dizer que é uma honra participar de uma entrevista neste que é um dos melhores blogs de retrogames lusófono. Muito obrigado pela oportunidade.

Meu nome é Marcelo Paschoalin, tenho 30 anos, sou psicólogo, escritor, marido e gamer – não necessariamente nessa ordem. Nos antigos fóruns (e mesmo alguns outros lugares) eu usava o nick Fermmoylle, mas hoje vocês vão me encontrar mais como “letraimpressa”, nome do site que criei há não muito tempo.

“A última Dama do Fogo” é um romance de fantasia que trata do redescobrimento da magia. Num mundo pseudo-medieval nós acompanhamos a trajetória de uma náufraga que, sem memória, tenta descobrir mais sobre si e seu próprio destino enquanto segue um caminho de artes arcanas.

A temática dos seus livros guarda muitas semelhanças com a de alguns jogos de videogame, mais especificamente no gênero dos RPGs. Os videogames são mesmo uma influência no seu trabalho?

MP: Meu contato com os RPGs eletrônicos se deu dois anos depois de conhecer os livros de RPG. Nos livros, o que nos é fornecido é um conjunto de regras (mecanismos de resolução de conflitos), antagonistas e, às vezes, um cenário onde se desenrolarão as aventuras… Pense num RPG eletrônico bem ao estilo sandbox, sem limitações de tipos ações a serem realizadas e você poderá entender melhor.

Num RPG eletrônico você tem alguns limites: as ações e resoluções possíveis foram programadas de antemão. Tomando o Phantasy Star de Master System como exemplo, meu RPG de videogame favorito (seguido de perto pela saga Ys e pelo RPG de computador Darklands), o jogador não pode, por exemplo, dar a noz de laerma quando quiser a uma das personagens (vou poupar os spoilers), nem colher mais de uma noz.

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E tudo começou com um joguinho de RPG Maker…

Essa limitação funciona bem no universo fantástico do jogo eletrônico – é a realidade esperada -, mas nos livros de RPG, onde se preza a imaginação ao se criar histórias coletivamente, isso estaria aquém do esperado.

“A última Dama do Fogo” é meu primeiro romance – todos os meus outros livros são livros de RPG. E como dizer que os jogos de videgame não me influenciaram? É impossível!

Phantasy Star (I a IV), Ys (I e II), Darklands, Final Fantasy VIII, Vagrant Story, Ultima IV, Legend of Dragoon… e não só RPGs: Master of Darkness, Kenseiden, Streets of Rage 2, Street Fighter II, SoulCalibur 3… Às vezes é a história, outras é a mecânica, ou mesmo algo que acho genial e, de repente, gera um insight legal. Videogames e literatura têm tudo a ver: cada qual conta uma história a seu próprio modo.

E, no fim, somos todos fascinados por histórias.

O livro “A Dama de Fogo” é parte de uma trama que você desenvolveu no jogo homônimo de RPG Maker. Conte-nos sobre esse jogo, e sua relação com o livro.

MP: Tudo começou como uma brincadeira. A Ascii tinha acabado de lançar o RPG Maker 2000 e, embora houvesse um ou outro jogo em português, eram em sua maioria cômicos (jogos pequenos, despretensiosos, com alguns toques de comédia). Eu tinha acabado de instalar o RPG Maker 2000 no meu computador e me impus o desafio de criar um jogo que pudesse refletir um pouco daquilo que eu gostava nos RPGs de 8-bits. Usando o cenário dos meus jogos de RPG semanais na casa de amigos, desenvolvi toda a história e preparei todo o jogo.
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Toda forma de narrativa é capaz de levar alguém a se tornar, verdadeiramente, um “contador de histórias” — seja por meio da criação de um jogo de videogame ou de computador ou mesmo escrevendo uma fanfic ou um blog.
— Marcelo Paschoalin, autor de “A Última Dama do Fogo”

Por ser um dos primeiros jogos em português, ainda no início da Comunidade Maker brasileira, o jogo teve uma boa repercussão, tendo, de certa forma, alavancado a criação de outros jogos de RPG Maker por brasileiros (acho que pensavam “Se o Fermmoylle pôde fazer eu também posso” ^_^). Naquela época eu não pensava que seria um dos pioneiros, mas depois de alguns anos é legal encontrar gamers e makers daquela época que ainda lembram do jogo dizendo que ele os influenciou de alguma maneira.

Mas, voltando a falar do jogo, o romance “A última Dama do Fogo” retrata os eventos anteriores ao jogo. De certa maneira, ao jogá-lo, você tem acesso a uma série de spoilers do livro – alguns sutis, outros nem tanto. E, mesmo que eu tenha mudado alguns detalhes desde que o jogo foi lançado, em verdade o jogo inspirou outros três livros meus: “Anel Elemental: o Legado”, “Anel Elemental: a Nova Era” e “Dark Fate” – a cada conto eu acrescentava um ponto e, por mais que a essência seja a mesma, a história ao redor da protagonista ganhou proporções mais míticas.

Se eu não tivesse criado o jogo, talvez eu jamais tivesse publicado meu primeiro livro.

Muitos gamers criam histórias de aventuras e gostariam de escrever seus próprios livros, mas é notoriamente difícil entrar no mercado editorial. Você acha que criar um game de forma independente, como você fez no RPG Maker, pode ser uma boa maneira de um futuro escritor dar seus primeiros passos?

MP: Toda forma de narrativa é capaz de levar alguém a se tornar, verdadeiramente, um “contador de histórias” — seja por meio da criação de um jogo de videogame ou de computador ou mesmo escrevendo uma fanfic ou um blog. Não é a forma que importa, mas como a história é transmitida a sua audiência. Mas advirto: por mais que as ferramentas de criação de jogos tenham se tornado mais fáceis com o passar dos anos (RPG Maker, SCUMM, Mugen e outros), desenvolver um jogo requer mais que uma história — é preciso ter uma noção de lógica de programação, conhecer os conceitos de flags e eventos, e, acima de tudo, divertir-se no processo. Quando criar deixa de ser divertido, você está perdendo algo de fundamental na arte de contar histórias.

Trailer do livro

E, falando especificamente do RPG Maker, hoje você tem uma comunidade ativa e com diversos jogos de qualidade – há áreas de especialização até, desde roteiros a scripts e sprites. O jogo “A última Dama do Fogo” usava praticamente os gráficos “padrão” do RPG Maker – algo que, hoje, faria o criador ser tachado de “newbie”. Ser um criador hoje em RPG Maker é ter uma audiência crítica e conhecedora do assunto.

Em essência, você está autopublicando sua obra: você cria, faz o marketing, distribui e, se seu público se interessar, você vende (computa um download a mais). Se sua obra for bem aceita, surgirão resenhas; se não, cairá no esquecimento.

Basicamente é esse o caminho que tomei com o livro “A última Dama do Fogo”: autopublicação. É como voltar às raízes… um movimento retrô, talvez?

E agora, quais são seus planos para o futuro? Mais livros ou mais jogos? A saga de Deora vai continuar em alguma mídia?

MP: Mais livros! Na verdade tem um no forno e algumas ideias sendo estudadas, algumas delas envolvendo a saga de Deora. Recebi alguns convites para alguns projetos futuros, mas todos na área literária – embora nada me impeça de criar alguns jogos nesse ínterim, pois tenho dois projetos inacabados em RPG Maker VX que, com o devido investimento de tempo, podem ver a luz do dia.

Hoje eu sou um escritor. Vivo pela escrita, e não há um dia sequer que eu não escreva algo — gosto de contar histórias, regatar a fantasia perdida… Afinal, não ficamos velhos e perdemos a fantasia — só ficamos velhos quando perdemos nossa capacidade de fantasiar.

* * *

Meus agradecimentos ao Marcelo pela entrevista, e muito sucesso não só a ele com seu novo livro como também a todos os amantes de um bom RPG retrô que algum dia conseguirem publicar seus próprios trabalhos!

Jogo de RPG Maker vira livro: conheçam “A Última Dama do Fogo”

11 ideias sobre “Jogo de RPG Maker vira livro: conheçam “A Última Dama do Fogo”

  • 08/11/2010 em 3:35 pm
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    Rpg RULES!
    Vou jogar, como ví na materia o jogo contem alguns spoilers do livro, dependendo do meu agrado quanto a trama, a narrativa, certamente adquirirei o livro.
    Sou um eximio colecionador de rpg, tanto eletrônico como de mesa e essa rpgzada toda já me colocou em cada uma…a beira de um divórcio e por causa de uns certos livros com capas exóticas minha mãe até hoje acha que eu faço parte de alguma sociedade, seita ou religião secreta.
    Exelente materia Gagá e vamo dar uma força ao amigo irmão brazuca!

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  • 08/11/2010 em 11:05 pm
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    @Paladino222
    Não esqueça que o jogo tem cerca de 10 anos de idade… e foi feita de maneira despretensiosa. Não espere encontrar uma obra prima ali (mas quem sabe eu não me animo a fazer um remake?).

    @Luiz Zacarias
    Muito obrigado pelos elogios. Sempre gostei de teoria dos jogos, criatividade e temas afins – alguns textos que enviei para uns sites de RPG Maker nos últimos dois anos foram o fruto de alguma pesquisa e dedicação.

    @gamer_boy
    Melhores jogos? Difícil responder a isso, pois gosto é algo muito pessoal. Posso dizer que gosto de alguns jogos mais antigos, quando não havia tanta especialização ao se criar – o criador fazia tudo, sem depender de uma equipe, como tem acontecido nos últimos tempos. Se conseguir encontrar algum jogo do Philomortis (designer anglófono) e tiver um gosto parecido com o meu, vai gostar. Em português, um jogo que marcou época para mim (não é necessariamente o melhor) foi “Rhygar e os Soldados do Rei”.

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  • 09/11/2010 em 7:26 am
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    Caramba, olhar para o feito desse cara é olhar meu sonho realizado. Eu também sempre tive vontade de terminar jogos de RPG maker – mas nunca concluí nenhum dos meus projetos – e também de escrever um livro – mas nunca tive habilidade literária suficiente para tal.

    Hoje meu tempo se tornou tão exíguo que mal consigo LER livros, quem dirá escrever um. Mesmo assim, arranjarei um tempinho para jogar esse jogo, parece ser uma pérola em meio ao mar de games “paródia” e “fangames” existentes nas comunidades maker por aí.

    PS: Ainda deixo em aberto aquela idéia que lancei na academia gamer, de formar uma equipe de visitantes do Gagá para desenvolvimento de jogos no RPG Maker.

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