“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Esses dias estava pensando em alguns jogos que acompanhei o nascimento no começo da década de 1990. Eu era criança ainda, mas lembro de ter ficado instigado com uma matéria na revista Videogame em que falavam do Sonic the Hedgehog para Mega Drive em fase final de produção.

Fãs do ouriço azul certamente já viram as páginas dessa matéria em algum lugar por aí porque são algumas das poucas imagens oficiais “sobreviventes” da versão beta desse jogo enviado para jornalistas terem uma ideia do que estava por vir e, claro, para os próprios testadores da empresa experimentarem e fazerem seu trabalho tedioso, mas essencial.

E isso me levou a pensar justamente sobre algo interessante. Antes, porém, quero dizer que sei da existência de versões alfa, beta, gama etc. de vários jogos antes de seu lançamento e embora haja diferenças, optei por uniformizar o discurso com “beta” mesmo porque é assim que geralmente são conhecidos pelos leigos da indústria de games (como eu mesmo o sou em muitos sentidos). Além disso, não estou pensando aqui naquelas imagens criadas para mostrar “como seria” o jogo como pudemos ver, por exemplo, com a Dust Hill Zone do Sonic 2: um cenário que sequer foi programado ou desenhado, apenas imaginado e representado com uma colagem de imagens. 

Não irei enveredar pela seara do interesse informativo de tais cartuchos beta que em muito se assemelham aos “discos para imprensa” que distribuíam em eventos de games na década de 1990 com imagens de produção em resoluções imensas para usarem nas matérias e coisas do tipo. E nem mesmo pelo caráter de “sedução” que termos contato com notícias a respeito do “game antes do game” influenciam em nosso interesse de querermos nos entregar a seu mundo ou não.

Quero pensar se podemos considerar uma versão beta como um game nele mesmo (distinto do efetivamente lançado), ou como apenas uma curiosidade técnica do processo produtivo. Para isso, pensei em estabelecer um elo com o “esboço” utilizado nas artes visuais. A razão disso não é porque acho que “bela arte” e “game” são sinônimos, mas porque podemos visualizar melhor o que estive pensando através dessa analogia.

A primeira coisa importante é que um esboço é diferente de um projeto. Um projeto tenta considerar como tudo será feito, quais recursos serão utilizados, eventuais problemas que podem aparecer (e como solucioná-los etc.). O famoso “documento de design” da indústria dos games é, portanto, o projeto de um game a ser desenvolvido (ou em desenvolvimento, já que é algo sempre mutável de acordo com o que encontramos pelo caminho). Até falamos disso aqui na Academia Gamer em algum momento anterior inclusive. Alguns projetos, vale acrescentar, possuem esboços de elementos visuais, sonoros (se for um documento que aceite diversas mídias e não um bolo de papel impresso); mas não é uma regra e a distinção entre ambos os conceitos se mantém.

O esboço seria um “teste” daquilo que queremos produzir de fato. Hoje em dia esses testes nas artes visuais podem até mesmo ser feitos no computador graças aos seus mais variados recursos. Se, por exemplo, ao querermos fazer uma pintura, não sabemos com certeza como determinada tinta comportar-se-á em gesso, podemos usar modelos computacionais e simular essa pintura. Antigamente, provavelmente se usava um pedaço de gesso real e a tinta real para isso, mas a ideia é mais ou menos a mesma.

As versões beta do jogo funcionam similarmente a essa mesma noção: são um tipo de rascunhos do jogo. Ou seja, não são uma obra acabada, mas em vias de completude ainda.

Até aí, parece não haver muitos problemas, mas há sim algo a se pensar a respeito. Muitos rascunhos de pintores, contos inacabados de escritores e muitas obras inconclusas dos mais diversos artistas são consideradas nelas mesmas “obras de arte”. É como se sua incompletude fosse sua característica de belo mais essencial. Mas isso é estranho porque é aquele que produz que deve dizer “está pronto!” quando finaliza seu trabalho e não nós que interrompemos sua tarefa pela metade e dizemos que está perfeito daquele jeito. Presumo que Da Vinci, Michelangelo e muitos outros talvez não gostariam de ver seus testes e obras não-terminadas contempladas como algo feito e completo.

Com relação aos games, é certo que podemos ter acesso a versões beta deles e nos divertirmos da mesma maneira. Mas isso me parece ser muito mais um interesse pela própria produção do jogo (nem que seja pela via do “como era, como ficou e como teria sido”) do que por ele propriamente dito. Para amantes da literatura fantástica, poderia ser uma dádiva, sei lá, ler a primeira versão manuscrita de “O Hobbit” que teria sofrido muitas alterações até sua primeira publicação. Mas percebem que o interesse motivador por isso é de certo modo é em grande parte apenas o conhecimento?

Claro que podemos nos envolver por essas versões e apreciá-las como legítimos jogos, mas a obra mesma feita e concluída vem depois.

“Mas e aquelas revisões que geralmente vemos depois do primeiro lançamento? Só a primeira edição que conta?” vocês podem questionar. Com certeza muitos games, de anos atrás e também recentemente, são consertados em relançamentos. Há um bug da versão inicial de Sonic the Hedgehog para Mega Drive mesmo (que não me lembro qual é) que foi arrumada em novas edições do mesmo game. Pequenas alterações, reformas e detalhes não alteram o elemento essencial da obra feita e concluída.

Arrumar um texto para novas regras ortográficas, restaurar cautelosamente um afresco antigo, ajeitar bugs insistentes em games nada mais é do que pleno respeito pela integridade da obra original. Fora que muitas vezes, esses mesmos detalhes arrumados nem sempre são percebidos, exceto se resolvemos comparar, ou quando alguém nos diz algo a respeito. Uma versão beta, um esboço é algo completamente diferente: se há a obra completa, identificamos claramente sua incompletude. O problema é: e quando essa obra não foi realmente concluída em momento algum?

E quanto àqueles games que nunca foram lançados, mas algumas revistas e profissionais das empresas de desenvolvimento criaram e provaram tais versões de jogos jamais lançados?

É isso que queria trazer hoje para refletirmos. Até o próximo post!

Academia Gamer: Betas e esboços
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