Quando o assunto é retrogaming, às vezes a gente está tão empenhado em jogar os superclássicos que acaba passando direto por verdadeiras pérolas.

No caso do jogo de hoje, o meu pecado é duplo. Primeiro, comprei Collection of Mana para o Nintendo Switch especificamente para jogar Secret of Mana, um clássico lendário blá blá blá. Segundo, eu não manjo praticamente nada de portáteis velhos, e sempre que abro o baú de velharias para procurar um jogo, ignoro solenemente tanto Game Boy quanto Game Gear.

Foi nesse embalo aí que eu quaaaase perdi o Final Fantasy Adventure. Mas aí bateu aquele “já que comprei a coletânea, vamos pelo menos dar uma espiadinha no primeiro jogo…”. I’m so glad I did it.

Imagens capturadas via Collection of Mana, daí as bordas enfeitadas que tive preguiça de cortar para o post. A coletânea também permite trocar a paleta de cores e eu fui experimentando, por isso a variação nas screenshots.

Antes de mais nada, sobre o nome: o primeiro Mana foi criado como um spin-off de Final Fantasy. Mesmo no Japão, onde o jogo se chama Seiken Densetsu (tipo “A Lenda da Espada Sagrada”), rola um subtítulo: Final Fantasy Gaiden.

Francamente, tirando um chocobo e as cenas mexicanas dramáticas, não tem muita coisa de Final Fantasy no Seikenzinho não. Ele está bem mais para Zelda 2D, com aquela mesma estrutura de mundo para explorar + dungeons. O combate também é ação pura, nada de menus e turnos. Digamos que Link’s Awakening e Final Fantasy Adventure são dois bolos feitos com os mesmos ingredientes, só que em quantidades diferentes: se Zelda bateu o dobro de claras na exploração do mundo e nos puzzles, FFA tascou mais fermento no combate e na trama. Ou seja, se os puzzles dos Zeldas 2D enchem seu saco e você queria mais ação, taí o seu jogo.

A melhor maneira de explicar como é o jogo talvez seja focando no combate, porque os elementos mais marcantes e interessantes do FFA giram em torno dele. Você começa a aventura com uma espadinha marota para sair sentando o pau em todo mundo, mas observe que temos uma barra na base da tela:

Quando você não está atacando, essa barra de WILL (tipo o “pique” do seu personagem) vai enchendo; devagar no início do jogo, mas possivelmente que nem um foguete perto do final. Quanto mais cheia ela estiver quando você atacar, mais forte será o seu ataque. E se ela estiver em 100%, rola um ataque especial, que varia conforme a arma que você estiver usando.

Sim, há outras armas disponíveis. Elas são encontradas em dungeons e meio que funcionam como os itens especiais que abrem novas áreas em Zelda. O machado, por exemplo, pode ser arremessado contra os inimigos quando a barra de WILL estiver cheia, mas também pode cortar árvores no mapa para abrir caminho. A corrente, que tem longo alcance de ataque, também agarra postes do outro lado de rios e abismos e puxa o herói para lá.

Um exemplo de combate com ataque físico e magia

Cada arma tem uma dinâmica diferente em combate, e mais de uma vez preferi usar uma arma mais fraca porque o tipo de ataque dela parecia mais apropriado para uma certa área.

Mas não tem só arma não, tem magia também! Magia de ataque, magia de cura, magia inútil, tem de tudo. Algumas magias também têm importância estratégica em puzzles: ICE, por exemplo, congela inimigos para que você os empurre sobre pisos que abrem portas. A magia NUKE, que causa alto dano aos inimigos, também serve para estourar o cristal que esconde a entrada de uma dungeon. São puzzles bem light, nada muito cerebral. Só tem um lá envolvendo o número oito que… Bom, não vou estragar, mas é para xingar os programadores. Ainda bem que o GameFaqs existe.

Tem vários eventos no jogo com apresentação bem caprichada

Ataque, magia… o que falta? Itens! Sim, vários deles. Temos os tradicionais itens para recuperar vida, curar venenos e outros alterações de status e até itens que invocam magias. Pode parecer tudo muito trivial se vocês pensarem em termos de Final Fantasy, mas se pensarem em termos de Zelda, é uma diferença notável e muito interessante.

Ah, sabem outro diferencial bacanérrimo em relação a Zelda? Aqui você passa boa parte do jogo com um parceiro controlado pela inteligência artificial… digo, DEScontrolado pela inteligência artificial. O que vai rolar é que enquanto você luta, o/a carinha vai ficar lá atacando o vento, mas vez ou outra acerta um golpe. E às vezes, com classe, vejam só o que me aconteceu aqui:

Seus companheiros também têm habilidades únicas que você pode requisitar abrindo o menu e escolhendo ASK. Um pode restaurar seu MP, outro pode te curar se você virar pedra e por aí vai. Mas não se apegue muito a ninguém, os companheiros vêm e vão conforme o andar da história — que diga-se de passagem, é linear. Toda a progressão do jogo é linear, não só em termos de história, mas também de exploração. Não é como em Zelda, onde você vai para onde quer e tal. Aqui você sempre tem que ir para um lugar específico, e não adianta tentar sair da rota que você não vai ganhar nada com isso, vai ter um obstáculo lá te impedindo. Até onde eu sei, nada de side-quests no FFA.

Apesar das restrições do mundo, você tem alguma liberdade para desenvolver seu personagem. Você ganha EXP ao matar inimigos, e ao subir de nível pode escolher qual stat vai aprimorar: POWER aumenta seu ataque físico, STAMINA aumenta sua defesa, WISDOM te dá mais MP e poder mágico e WILL faz sua barrinha de ataque especial encher mais rápido. Eu foquei bastante no poder de ataque, mas me parece bastante viável investir mais em WILL para usar os ataques especiais com mais frequência. Investir em WISDOM parece uma boa também, porque tem magias úteis no jogo e itens que restauram MP.

Caiu do céu essa coletânea. Os jogos incluídos são Final Fantasy Adventure, Secret of Mana e Trials of Mana (pela primeira vez em inglês).

Podem me chamar de puxa-saco, mas eu acho a linearidade de exploração um trunfo do jogo. Ele tem um ritmo invejável, sempre tem algo interessante acontecendo e você vai que nem uma flecha de um ponto ao outro da trama, que até surpreende. Não que seja digna de prêmios, é o tradicional roteiro “vilão quer sugar a energia da árvore da vida para dominar o mundo”. Só que tem vários personagens no jogo, e embora a maioria tenha participações rápidas e fale pouco, eles cumprem seu papel muitíssimo bem. Tem sim um excesso de drama aqui e ali, mas no geral a trama é bem pé no chão, sem apelar para deuses nórdicos, meteoros gigantes do apocalipse e outras coisas que todo fã de Final Fantasy já se acostumou a ver.

E as músicas? Oh man, a trilha sonora do jogo é uma delícia cremosa. Vocês vão notar desde o início, e o jogo vai inteirinho com músicas de alto nível. Não por acaso, volta e meia rolam concertos lá fora com as músicas da série Mana. Os gráficos também não ficam atrás: há uma boa variedade de inimigos, as diferentes regiões do mundo têm uma identidade visual própria e os chefes são bem grandões e caprichados para a modesta telinha do Game Boy.

Um dos chefes do jogo, e notem que meu parceiro até que ajudou…

Depois de alguns dias de jogatina, terminei o jogo. Ele não é nem muito curto, nem muito longo; tem a duração certa e acaba bem quando deveria acabar mesmo, ainda em alta, mas quando você sente que ele já te mostrou todos os truques que tinha. Todo jogo deveria acabar com honra, desse jeito, em vez de ficar enrolando. Gostei bastante de como a trama terminou também. Como eu disse, é uma trama sem viagens absurdas, sem reviravoltas que não fazem sentido, mas ainda assim movimentada e funciona muito bem. O final tem a dose certa de drama para ser bonito sem ser apelão. Que beleza de jogo, ainda bem que dei uma chance.

Vocês devem estar pensando: “agora que terminou o FFA, o Gagá vai pular na maior fome em cima do Secret of Mana”, certo? Mas vejam só que ironia: eu gostei tanto do Seikenzinho, mas tanto, tanto, que nos primeiros minutos do Secret of Mana já senti falta da ação simples e empolgante do primeiro jogo. A melhoria gráfica é óbvia, mas deu uma sensaçãozinha de downgrade no gameplay…

O lance todo de Mana e natureza fica bem destacado até nas dungeons, que quase sempre têm rios ou pequenos lagos, coisas que geralmente só aparecem no overworld de jogos desse tipo.

Perdoem a heresia, eu provavelmente estou falando uma besteira enorme. Secret of Mana é um clássico, tenho certeza que vou adorar. Mas sabem como é, vocês já devem ter tido essa sensação quando terminam um jogo incrível, parece que tudo que a gente pega depois é uma droga. Não vou cometer essa injustiça com o Secret of Mana: vou jogar outra coisa agora para deixar o transe do Seikenzinho passar, aí eu caio em cima da sequência também.

Final Fantasy Adventure of Mana Densetsu da Silva

6 thoughts on “Final Fantasy Adventure of Mana Densetsu da Silva

  • 29/01/2020 at 1:50 pm
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    Na época do Gameboy eu tive um jogo que se chamava Final Fantasy também, mas que eu desconfiava que não era realmente Final Fantasy porque tinha umas mecânicas diferentes, uma delas é que voce podia ter um monstro como um dos integrantes da party. O interessante é que os monstros de encontros aleatórios soltavam uma “carne do monstro”, e se você desse essa carne para o monstro da sua party, ele virava o monstro que originou a carne.

    Eu sabia que tinha isso de jogos do Gameboy virarem “Final Fantasy” no ocidente, mas achei que era um jogo só, por isso quando vi o post achei que era o jogo que eu tinha jogado. Mas sua descrição não tinha nada a ver. Olhando na internet, acho que o que eu joguei foi “Final Fantasy Legend II”, que na verdade era Sa Ga 2: Hihou Densetsu. Outro Final Fantasy que não era. Lembro que esse era mais um RPG padrão, e era enorme, joguei muito tempo mas não terminei (acho que deu um problema na bateria do cartucho e meu save apagou).

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  • 31/01/2020 at 11:33 am
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    Rapaz, gosto muito de ler seus comentários sobre estes joguinhos antigos. É muito bom ver como você consegue encontrar a magia por trás das camadas de tempo, gráficos ultrapassados e músicas monofônicas (além da poeira) dessas relíquias.

    Parece um joguinho bem gostoso para relaxar. Me lembrou de leve a série Ys qu é basicamente isso com muito mais ação e um pouco menos RPG, além de um trilha bem mais rock n’ roll. Só não tem o parceiro para “ajudar”.

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  • 04/02/2020 at 7:22 am
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    Frederico Pestana,

    Parece que ele teve uns dois ou três remakes. Um camarada me disse que o remake de GBA é meio fraco porque, dentre outras coisas, dá uma esticada no jogo que estraga o ritmo. Mesmo assim, se um dia estiver com um tempo sobrando, vou dar uma conferida.

    E mate uma curiosidade: essa sua foto “zumbificada” foi batida com aquele recurso do Zombi U? Eu era doido por aquele jogo e tinha uma foto parecida ^_^

    Andrei Formiga,

    O curioso é que essa franquia SaGa tem fama de ser mais esquisitona. Nunca joguei nenhum jogo dela, mas morro de curiosidade. Pelo que dizem, são RPGs meio hardcore onde você tem mais liberdade para gerenciar a equipe e lidar com o combate, por exemplo, em vez de seguir uma rota mais linear e padronizada como na maioria dos JRPGs.

    Fábio Rodrigues,

    Valeu, Fábio! E sou fã de Ys também, especialmente das trilhas sonoras. Ainda não joguei o VIII, mas acho que neste ano eu encaro.

    aki é rock,

    Rapaz, ninguém merece perder o save. Isso me aconteceu quando eu era moleque no Zelda II: passei meses jogando com um amigo, chegamos na entrada da última dungeon, resolvemos fechar o jogo no dia seguinte… e o save apagou 🙁

    Dez milhões de anos depois, comprei o jogo no Virtual Console do Wii e finalmente terminei. O bom é que já tinha tanto tempo que eu tinha jogado que nem lembrava de mais nada, então foi como jogar um jogo novo, he he!

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  • 04/02/2020 at 8:01 am
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    Orakio Rob, “O Gagá”,

    “Um camarada me disse que o remake de GBA é meio fraco porque, dentre outras coisas, dá uma esticada no jogo que estraga o ritmo.”
    Achei a mesma coisa. De um certo ponto para frente eu joguei meio arrastado. Acho que só fui até o final porque descobri um combo com um dos Mana Spirits que deixava o combate bem fácil. Um dia quero dar uma nova chance para ele.

    Sim, Essa foto zumbificada é do ZombiU. Como o jogo não deixava salvar, bati uma foto da tela da TV. =)

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