“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Hoje, vamos continuar com aquele meu processo de compreensão da música “Funeral Procession” de Wild Arms. Para os que querem ouvir a música sem abrir o post da semana passada, podem olhar aí embaixo que a coloquei novamente. Pode até servir para embalar a leitura. Ou parte dela, já que hoje teremos outras músicas servindo para ampliar o sentido da música ao invés simplesmente de imagens como anteriormente.

Cada obra de arte carrega junto de si tudo aquilo que foi feito no passado. Ou seja, ela se mostra não somente como uma obra única, mas também uma obra imersa em toda uma tradição artística. De modo que é plenamente possível que todo esse ambiente de pesar, de luto e dor que a faixa passa também pode aparecer em outras canções.

Por essa razão selecionei duas músicas que servirão para isso. Escolhi ambas mais pela música mesmo e não pelas letras; portanto, não se preocupem com o inglês e o latim que ouvirão. Se quiserem ver os vídeos, tudo bem, mas o foco aqui é a música e não as imagens que as acompanham. Além disso, deixei as músicas espaçadas para que não ficasse um bloco muito grande de texto. Mas gostaria muito que, se fosse possível, que ouvissem ambas antes de seguirem com o texto.

Esta imediatamente abaixo deste parágrafo é, como talvez já tenham percebido, Belfast Child da banda Simple Minds lançada em 1989. Falarei dela a seguir juntamente com a próxima faixa que serve para ampliar o horizonte de compreensão da Funeral Procession de Wild Arms.

Vamos por partes. Belfast Child é uma música baseada em uma canção folclórica irlandesa cuja letra fala sobre os conflitos recorrentes na Irlanda do Norte entre católicos e protestantes. Já o “Requiem aeternam” (algo como “descanso eterno”) de Mozart é a abertura do famoso Réquiem de Mozart que, inclusive, não foi completado por ele em vida. Essa introdução é uma das faixas que ele conseguiu dar uma forma mais ou menos final. Todo o Réquiem basicamente é uma versão cantada de uma missa fúnebre que segue o rito latino.

Retornemos ao nosso foco agora. Funeral Procession nos seduz ao envolvimento em uma genuína marcha fúnebre em que alguém que nos é querido parte para sempre. Uma vez que estejamos nesse clima, podemos perceber duas coisas. A primeira é que as pessoas próximas a nós são mortais (logo, morrem). Em um segundo momento, percebemos que nós mesmos somos mortais (logo, morremos).

Isso significa que durante o luto homenageamos o morto entregando-o a seu descanso e, ao mesmo tempo, percebemos a sua finitude. E tal finitude do outro permite que reconheçamos a nossa própria finitude! Nossa própria existência nos desafia a assumir que somos “seres-para-a-morte”. E, claro, isso gera angústia. E a angústia que sentimos em Funeral Procession não é aquela reação esperada diante de uma cena triste e infeliz: ela praticamente nos arranca da impessoalidade e nos coloca diante de nossa própria liberdade e responsabilidade. Isso porque, ao percebermos que morremos e que essa é a experiência mais individual que teremos, notamos nossa liberdade que nos diz: “você deve escolher porque não pode ser e fazer tudo”.

Ainda temos mais a tratar, contudo, deixo isso para o artigo a seguir em que, se tudo der certo, completo essa trajetória compreensiva em torno de uma música de Wild Arms.

Era isso que queria trazer essa semana. Até o próximo post!

Academia Gamer: Compreendendo uma música [parte 02]
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8 ideias sobre “Academia Gamer: Compreendendo uma música [parte 02]

  • 15/11/2011 em 8:40 pm
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    Linda, essa do Mozart.

    É verdade isso de a morte de alguém próximo mostrar que somos todos finitos, e essa angústia vem da gente querer a todo custo negar algo que é natural e inevitável. Faz com que nós, do auto da nossa arrogância e auto-suficiência, encaremos algo que não podemos controlar. E mostra que a vida é mesmo assim.

    Comprei recentemente – ainda estou esperando chegar – o “Shadow of Colossus”, de PS2. Que além de ter belíssimas músicas parece tratar exatamente disso, da não aceitação da morte, algo tão natural quanto a mesma, parece.

    No filme “A Vida de Brian”, do polêmico grupo britânico Monthy Phyton – o filme é uma paródia da vida de Jesus – tem uma música no final chamada “Bright Side of Life”, que achei bacana pelo jeito em que encara o final da vida, com um olhar conformado e bem humorado. Acho que vale a pena dar uma olhada (tem no YouTube, a versão dublada também é ótima) embora não tenha nada a ver com o assunto aqui.

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  • 15/11/2011 em 9:08 pm
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    @Onyas
    Muito boa né? Pena que ele não completou o Réquiem todo.

    A medicina e a ciência atualmente favorecem boa parte desse pensamento da morte como um “erro médico” e algo que deve ser postergado e evitado a todo custo. E assim, acabam favorecendo a ideia da morte como algo que “todo mundo passa” sem levar em consideração que ninguém morre a morte do outro. Que a finitude e a própria morte são nossas.

    O Shadow of Colossus tem algo a ver com isso mesmo. Joguei bem pouco, mas isso fica bem evidente a certa altura.

    Esse filme é um barato! huahauahuaha Ainda prefiro o “Cálice Sagrado”, mas esse é bacana também. Essa música é boa também: cantaram no funeral de um dos membros do grupo inclusive. hehe E tem a ver com o assunto sim! Quando percebemos a morte como sendo própria, podemos tanto nos desesperar como começar a dar sentido à nossa própria vida. Nessa segunda alternativa, a morte não é a desgraça que acomete ao homem, mas seu corolário, sua coroa. E muito do bom humor diante da morte passa por isso. O cristianismo acaba vendo a morte desse jeito (ou deveria ver pelo menos), não tanto pelo que viria depois, mas na nossa vida aqui no mundo também. Foi uma paródia bem vinda e coerente. Embora, claro, morrer ainda doa. hehehehe

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  • 15/11/2011 em 9:40 pm
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    É, o “Cálice Sagrado” realmente foi o topo deles, nunca vi humor tão afiado. E o “A Vide de Brian” aborda um termo muito delicado, sobre manipulação de massas. Inclusive é visto como filme ateísta. Mas a música final é sensacional, foi tocado mesmo no funeral do Graham Chapman, que interpretou o Brian nesse filme.
    Mas isso de ver a morte como algo “alheio” é algo típico do homem. Nós nos vemos assim também – alheios – quando falamos do mundo animal e da natureza, como se nós não fizéssemos parte dos dois. Essa visão egocêntrica parece ser algo muito antigo, nem saberia dizer quando começou. Talvez nos Faraós ou na antiga Babilônia. Quem sabe até antes…

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  • 15/11/2011 em 10:34 pm
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    @Onyas
    Sim, isso faz parte da experiência humana mesmo. Mas o desenvolvimento da ciência moderna desde Descartes com a cisão entre sujeito e objeto acabou levando a uma certa “objetivação” de tudo em que poucas coisas nos tocam profundamente hoje em dia e, se toca, é porque temos algum problema. hehehehe

    Esse mesmo processo acabou ocasionando essa visão que comenta como se fôssemos algo totalmente opostos à natureza quando na realidade somos “irmãos” íntimos.

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  • 16/11/2011 em 12:05 am
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    demorei a entender o seu texto,Mestre Senil. então vou relatar uma experiência minha com a morte e a música…

    quando criança,eu achava que era um ser único,pela gente ser dono de uma unica vida que é a nossa, é dificil explicar com palavras…tipo, achamos que se morremos, o mundo morre conosco. eu até imaginava que viveria mais de 100,200 anos e todos ao meu redor pereceriam.mas quando fui num desses piqueniques na praia, quase morri afogado. nesses instantes de desespero que tive em tentar me manter vivo, eu ouvia apenas o som da morte…..o silêncio.

    esse silêncio foi a “pior música” que eu ouvi. eu morreria afogado com aquele som de vácuo…ah, eu não vi Deus,Jesus ou qualquer coisa parecida no meu estado de desdobramento.(estado de quase morte…eu acho)apenas enxergava as bolhas salgadas do mar…sendo Off Topic um pouquinho, se a gente estiver quase morrrendo, como alguém que sofreu um acidente, nós enxergaremos o acidente e o revivaremos até a nossa morte?

    claro que fui salvo senão não estaria postando aqui 😀

    mais fiquei aliviado mesmo por sair do silêncio e voltar a ouvir os sons, os sons da vida. mas um dia, terei que voltar a ouvir aquele som de solidão e desespero que é o vácuo. essa experiência me marcou tendo 11 anos de idade… e essa música de mozart me fez lembrar desse dia..

    HEE-HOO, Mestre Senil

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  • 16/11/2011 em 12:16 am
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    @leandro(leon belmont) alves
    Caramba, mas que experiência! E desesperadora também!…

    Essa é uma boa pergunta, porque não sei como isso é. Nunca tive acidentes nessas proporções. No caso, eu também quase me afoguei certa vez e tenho algumas lembranças de coisas parecidas que falou. Nem tanto desse silêncio porque seu caso parece ter sido bem mais extremo.

    Ainda bem mesmo que foi salvo! hehe A Academia Gamer ia estar com algo faltando, sem dúvida. hehehe

    E certamente, esse silêncio todos nós vamos ouvir novamente. E dessa vez será para encerrarmos a sinfonia de nossas próprias vidas. A música do Mozart é boa mesmo para isso. Passa esse clima mais pesado e sombrio da morte. O Réquiem fica mais animado nas músicas que vêm depois, mas não combinavam muito com a de Wild Arms e acabei não pegando.

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  • 16/11/2011 em 11:48 am
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    O Cálice Sagrado eu ja gostei é bom e engraçado.
    Mas vamos ao assunto da música, Mozart foi um grande compositor e ele conseguiu definir a morte nessa melodia, com suas variações, mas que se chega no final.
    Já sei e vivi muitas experiência com a morte tipo sendo desafiado e vendo pessoas morrerem na minha frente, é uma sensação horrivel.
    Esse ponto que falou da música é algo que sempre anda com a gente sabe, temos varias situações em que poderiamos incluir música, mas nem sempre temos a melodia certa.
    Sobre a experiência do Leon eu mesmo tenho fobia de água, não sei nadar devido que meus irmãos antes tentavam me afogar na piscina e com isso criou uma fobia em mim que sempre quando vou a praia (isso ja se passou mais de 10 anos que n vou) sinto um certo desconforto e ja vivi a situação citada acima.

    A morte é algo que nucna aceitaremos, nos games sempre quando perdemos uma vida ou não conseguimos derrotar determinado chefe aparece aquela tela horrivel e deprimente do GAME OVER junto com uma trilha sonora triste ou cômica na maioria das vezes, sempre reparei isso e acabo rindo com isso apesar de ontem ter conseguido encerrar um jogo do NEO GEO chamado Ganryu, recomendo ao Orákio ele iria curtir apesar de ser pauleira, principalmente os chefes de fase mas minhas habilidades ninjas foram aperfeiçoadas com isso. Jogaço.
    Voltando ao assunto, uma trilha que me marca até hoje foi Panzar Dragoon como ja citei no tópico anterior e recomendaria procurar no youtube a trilha quando vc perde os continues ou morre no jogo, é triste pacas.

    É isso o GAME OVER de nossa unica vida um dia chegará . . .

    Ulisses Old Gamer 78

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  • 16/11/2011 em 9:48 pm
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    @Ulisses Old Gamer 78
    Toda vez que vejo esse filme eu rio sempre nas mesmas piadas, é impressionante. hehehe Poucos filmes de comédia fazem isso comigo.

    De fato, é inegável que o Mozart trouxe muita coisa da morte nessa canção. E é a mesma atmosfera da Funeral Procession de Wild Arms: épocas diferentes, músicas diferentes, mas que nos remetem a uma experiência humana básica e essencial mesmo sem o uso de imagens. Só a própria melodia, ritmo, harmonia já conseguem nos comunicar isso.

    Certamente é uma sensação horrível… Já tive minhas experiências com isso também… E seu receio com água é plenamente compreensível; e culpa dos seus irmãos também, lógico. 😛 hehehehe

    Tem jogos que parecem nos sacanear com a morte mesmo! hehehe Muito bem lembrado. No Wild Arms isso não acontece mesmo: seria incoerente com a atmosfera do jogo. Em outros, até seria esperado mesmo. Pior é quando o “Game Over” é a única coisa que o game nos oferece ao final, como no fatídico Shinobi. hehehehe

    E como eu disse também, a trilha de Panzer Dragoon é espetacular! Preciso pegar para jogar de novo… Tem um remake para PS2 do primeiro jogo da série, sabia? Dá para jogar a versão original e a versão com gráficos melhorados. Só não lembro se modificaram/melhoraram a OST também, mas acho que não.

    Só temos uma vida para aproveitar e para seguirmos o caminho que achamos certo. Por isso que, quando ficamos vivos e outra pessoa que nos é querida se vai que sentimos isso que a Funeral Procession passa: ao mesmo tempo que nos sentimos tristes, homenageamos aquele que se foi e por sua vida que, mesmo aos trancos e barrancos às vezes, foi vivida. Só que somente respeitamos nossa vida assim quando respeitamos nossa própria finitude, mas eu falo um pouco mais disso no próximo post. hehe

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