Hoje eu só vim contar um causo gamer, por ocasião do lançamento de Pillars of Eternity amanhã. Caso não saibam, PoE é um RPG desenvolvido por alguns dos crânios responsáveis por Baldur’s Gate, Icewind Dale e outros clássicos do PC.

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Eu nunca manjei muito de RPGs de computador, mas no carnaval deste ano decidi jogar um pouquinho de Baldur’s Gate para tentar entender por que diabos o jogo é tão famoso e influente. Depois de horas lendo o manual para tentar entender para que servia cada atributo (e fracassando miseravelmente), optei por criar um druida, porque os druidas de BG têm uma magia hyper-extra-gelato-cool que invoca plantas para prender as pernas dos inimigos e impedir que eles se movam. Sim, plants are evil!!! Que se danem os atributos!

Confesso que no início eu estava achando tudo um saco. A movimentação dos personagens é miseravelmente lenta e as cidades são meio grandes, então você fica se arrastando para chegar aos lugares. Fora que qualquer interação com as pessoas já pode render uma briga ou um mal-entendido que vai comprometer a sua reputação, e como sou um tremendo irresponsável, essas coisas me deixam tenso.

Posso proferir uma heresia aqui? As cidades do jogo me pareceram um tédio só, cheias de gente chata e de conversas entediantes. Onde estava a graça desse inferno?

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O carnaval já estava quase acabando e eu lá, há dias me forçando a jogar Baldur’s Gate, achando tudo um saco. O combate em especial me parecia uma tremenda chatice, uma confusão dos diabos, onde você tem que parar a ação, emitir comandos para cada personagem e soltar o pause para ver o pau comer. Confuso demais para o meu cérebro de minhoca, acostumado aos pacientes menus de batalha dos JRPGs de console.

E foi então que uma série de acontecimentos me levaram às minas de Nashkel, onde a minha ficha finalmente caiu e eu entendi qual é o barato do Baldur’s Gate. Acompanhem-me.

Depois de zanzar pela mina por um tempão, topei com duas aranhas. Sim, é claro que elas podem envenenar os heróis, e como o imbecil aqui não levou nenhum antídoto, minha única chance era matar as danadas à distância. Lancei a tal magia das plantinhas que eu tanto curto e consegui paralisar uma das aranhas — mas não a outra. Enquanto eu via em pânico total a maldita ir numa fome miserável na direção do meu grupo, meu druida (Orakio) lançava pedrinhas, minha ladra (Imonem) atirava flechas e meu necromante (Xzar) lançava mísseis mágicos (recém-aprendidos com um pergaminho).

Enfim, o que eu temia aconteceu e o bicho chegou perto demais. No desespero, bateu a ideia de uma estratégia de emergência: mandei parte do meu grupo (incluindo a Imonem, que ataca à distância) correr para a esquerda e a outra parte (o Orakio e o Xzar, que também atacam à distância) correr para a direita. Senti que o negócio ia ser interessante e comecei a capturar screenshots:

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Observem que na foto acima estou justamente mandando o Orakio (bem de frente para a aranha, acabou de atacar e sobreviver a um ataque potencialmente letal dela, save vs death e tudo) para a direita, onde o Xzar já está. “Vamos ver quem a aranha vai seguir”, eu pensei.

Ela começou a seguir a turma que estava correndo para a esquerda, então parei o Orakio e o Xzar lá na direita e comecei a disparar pedrinhas e mísseis mágicos com eles. Quando a primeira pedrinha acertou a aranha (e logo em seguida o míssil mágico), o bicho virou para a direita e eu quase pude ver os olhos vermelhos do monstrengo brilhando com aquela expressão de “MALDIIIIIITOOOOO VAI MORREEEEEER” 0_0

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​Claro que nessa hora eu me borrei todo e mandei o Orakio e o Xzar correrem com tudo pra direita! E essa foi a deixa para a Imonem, no grupo da esquerda, parar de fugir, mirar uma bela flechada na aranha e…

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… ZAAAAAAAZ! HOLY SHIT! FUNCIONOU!!!

Cara, isso foi demais!

Foi aí que eu entendi por que eu não estava curtindo o Baldur’s Gate. Eu estou muito acostumado com RPGs de videogame, onde a gente tem que “pagar o pedágio” de atravessar um labirinto para chegar na parte boa (uma nova cidade onde a história continua, por exemplo). Mas aqui é o contrário: a julgar pela minha experiência até então, no Baldur’s Gate as cidades são um pé no saco, o quente mesmo é o calor da batalha, onde tudo pode acontecer! As habilidades específicas de cada personagem, o posicionamento e a movimentação deles no campo de batalha abrem inúmeras possibilidades! Absolutamente sensacional esse negócio.

Sei que Baldur’s Gate é um jogo enorme e complexo, e não tenho a pretensão de terminá-lo. Na verdade, parei pouco depois desse momento, porque consegui aquilo que eu queria: entender qual era a graça e a importância desse joguinho tão badalado. E gostei tanto que resolvi partir agora para a praia do Divinity: Original Sin, outro RPG moderno que bebe dessa fonte. E claro, o Pillars of Eternity também está na fila. Fica a dica!

Baldur’s Gate: Ensinando novos truques a um cachorro velho
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7 thoughts on “Baldur’s Gate: Ensinando novos truques a um cachorro velho

  • 25/03/2015 at 5:26 pm
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    Post novo de Gagá. Pegando pipoca! 🙂

    >Que se danem os atributos!

    YES, Gagá! No melhor estilo “matt chat” de jogar cRPG!!!

    Caramba, a emoção dessa dungeon foi pro texto. Lembrou aquela série que fez sobre Fallout 1, que foi primariamente com fotos!

    E vamos ao Divinity, espero que dê pra contar pra gente aqui também! Valeu Orakio!!

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  • 25/03/2015 at 7:40 pm
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    Joguei Baldur’s Gate à época do lançamento (1998), e posso afirmar que o jogo era simplesmente incomparável. Sistema AD&D 2E (“O” sistema de RPG!), cenário de Forgotten Realms (“O” cenário de RPG!), personagens e quests abundantes, um mundo aberto pronto para ser explorado e mapeado, e claro: as batalhas! MUITOS combates taticamente ricos e surpreendentes.
    Os fóruns da época (ainda relativamente raros) ferviam com discussões sobre os segredos do jogo, formas interessantes de resolver as quests e as melhores maneiras de enfrentar este ou aquele inimigo em especial. Foi uma época muito boa… 🙂
    Só no primeiro Baldur’s Gate (sem contar o segundo!) dediquei centenas de horas, sem dúvida. A rejogabilidade era supreendente!
    Um pouco do encanto se perdeu com o passar dos anos, é claro. A interface realmente é complicada, e o gerenciamento do inventário era um “pé no saco” se me lembro bem.
    No mais, fui um dos financiadores do Pillars of Eternity, e estou bem empolgado com o lançamento.
    Se eu puder reviver um pouco da sensação de ter jogado os velhos CRPG da Bioware e da Black Isle, já terá valido a pena. 🙂

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  • 25/03/2015 at 8:02 pm
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    Ahhh, post do Gagááááááá!!!um!!! 😀

    Gagá, também sou jogador de console, e muito raramente jogava jogos de pc. E Baldurs Gate foi uma das raríssimas exceções, que eu curti bastante, e cheguei a zerar mas três vezes, acho (mas nas últimas duas fui malandrão, e usei uma falha do jogo, que permite importar personagens gerando montes de dindin e atributos overpower, hehehe).

    Mas a minha experiência foi bem diferente da sua, por um motivo simples: o bom e velho AD&D de mesa! 😉

    Como sou jogador de RPG de mesa, e o Baldurs Gate vai em uma linha de trazer as regras do jogo de mesa quase que integralmente para o jogo de pc, a curtição foi imensa pra mim, pois eu já conhecia as regras muitíssimo bem. Então eu já sabia das características das classes e raças, sabia de cor os bônus dos atributos e tudo mais.

    Ei, não some não, continue aí a escrever em seu ritmo bimestral ou coisa do tipo, mas não pare, ok? 😉

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  • 26/03/2015 at 6:36 am
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    O combate tático é uma das grandes coisas nos cRPGs tradicionais, como você viu. em JRPGs normalmente a estratégia entra na seleção de equipamentos e composição do grupo, mas nas batalhas em si tem relativamente pouca estratégia ou táticas envolvidas. Nos cRPGs, por outro lado, a tática do combate em si é crucial. Quem não percebe isso acha o jogo chato e difícil, mas quando você entende, de repente abre-se um novo mundo de possibilidades em que os encontros se tornam muito mais interessantes.

    A outra coisa boa de um CRPG é quando ele tem bons diálogos e bons personagens. Baldur’s Gate tem bons personagens no grupo, mas concordo que as cidades dele são meio chatinhas. Em comparação, acho que as cidades de Fallout 1 e, principalmente, do 2, são bem legais. No Fallout sair explorando as cidades era muito divertido e ajudava muito na caracterização do mundo do jogo. Acho que o fato de BG não ter cidades tão interessantes que levou à criação de um jogo que é quase 100% combate e dungeon crawling como Icewind Dale.

    Outra característica interessante dos CRPGs clássicos (mas que mudou com os jogos super-produzidos de hoje) é a grande variedade de formas de resolver qualquer problema ou quest. Geralmente um JRPG só vai ter uma forma de resolver cada problema, às vezes duas ou três, mas em um CRPG bom cada problema/quest tem várias opções disponíveis, dependendo da criatividade do jogador. Isso é possível pq os CRPGs são menos “scriptados” do que os JRPGs, funcionando quase todo na base do sistema de regras. Isso muda para jogos com dublagem porque é mais difícil dublar todas as possíveis reações dos personagens.

    Enfim, textão longo para dizer que eu estou bastante empolgado com o Pillars of Eternity, que eu apoiei no Kickstarter e finalmente vai sair.

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  • 28/03/2015 at 9:59 pm
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    Muito legais os comentários de vocês!

    Como vocês disseram, quem manja de AD&D realmente já sai na frente no Baldur’s Gate. O jogo inteiro orbita em torno das regras, e não o contrário, como acontece nos JRPGs (o Andrei explicou isso muito bem).

    E já que falamos em AD&D, vou confessar: tive vários dos grandes livros de regras de RPGs (GURPS, AD&D, Shadowrun etc) e nunca joguei nenhum. Eu amava ler sobre as regras e a ambientação, mas tinha a maior vergonha de jogar ^_^

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