Academia Gamer: Games e música

“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Pensei em várias coisas que poderia escrever nesta semana natalina. Algumas delas eram bem piegas, outras impublicáveis e outras mais fugiriam um pouco da proposta da coluna. Posso até dizer que a ideia inicial que alimentei para este post natalino era falar um pouco sobre a questão do espectador pensando justamente na leitura de algum livro de Nárnia em comparação com assistir a um filme sobre o mesmo universo. Mas acabei abandonando a ideia porque ainda estou refletindo sobre estas questões e não queria encher um post somente com parágrafos terminado com perguntas. Com certeza, leriam muito “ou não?” ao final deles. Ou não? :-P

Acabei preferindo algo em que já estive pensando há algum tempo. Talvez os agrade mais, inclusive. E, como poderão ver, acaba arranhando um pouco no tema de Natal.

“Vamos lá, precisamos salvar o mundo da destruição. Somente você pode fazê-lo, Controlador de Blocos Caindo”. Sim, estou sendo irônico. :-P

Lembram-se de quando falei (em algum momento) sobre o fato de a história (ou enredo) ser um dos elementos de games e que pode ser ou não essencial a eles? Se não, vou refrescar a memória de vocês rapidamente. Em diversos jogos, o enredo não faz a menor diferença e às vezes sequer existe. Por exemplo, no primeiro (e original) Tetris, não há toda uma odisseia em torno do grande “Empilhador de Blocos” que deve carregar sobre os ombros o fardo de salvar o mundo de um fenômeno chamado Entupimento Global. Em outros jogos, existe lá alguma coisa que poderíamos chamar de história (enredo), mas que não faz muita diferença enquanto jogamos; está lá, até prestamos atenção nele, mas não é essencial. Jogos que chamaríamos de ação ou de briga de rua serviriam para exemplificar isso. Em Streets of Rage II, jogamos com Axel e seus amigos para salvar Adam que foi sequestrado pelo vilão que, de algum modo, teria sobrevivido (ou ressuscitado?) após os eventos do primeiro jogo da série. É legal, dá uma ambientação, mas não é o essencial no jogo. Embora seja bem melhor que um prefeito marombado e bigodudo que tira a camisa e sai batendo em bandidos pelas ruas de sua cidade. :-P

Evidentemente, vale relembrar, que para outros jogos o que chamamos de história (ou enredo) é essencial e até mesmo o principal elemento do game. Isso é evidente desde os primórdios de jogos de RPG eletrônico, com exemplos evidentes de miseráveis falhas neste sentido como o primeiro Final Fantasy e, dizem alguns, Xak III. Claro que, se jogaram RPGs de mesa, sabem que um plot não precisa ser inovador e fugir totalmente dos clichês. Não estou dizendo que estes e outros jogos, somente por terem enredos simples (sejam RPGs ou não) sejam jogos ruins. Longe disso! Resgatar uma princesa sequestrada por goblins pode ser interessantíssimo, mesmo parecendo corriqueiro. O que quero dizer com a história como elemento essencial não é que ela deva ser complexa, e sim que deve ser bem amarrada. Clichês bem usados e coerentes com o todo daquele jogo (seja este jogo um livro, um filme ou um game mesmo) não são ruins em si mesmos. Um RPG com enredo simples pode nos prender por outros de seus elementos, por alguma outra coisa com que jogamos. Hoje em dia, a importância dada a esta questão ultrapassou RPGs e atinge praticamente quase todo game lançado (com raras exceções).

Acima, capa de um jogo sobre o qual lia em minhas velhas revistas de videogame.

Por que precisei falar disso tudo antes de falar do tema do post de hoje? Somente para que fique mais claro o que vou dizer a seguir. Nem preciso dizer qual tema é já que ele está bem explícito no título, não é verdade? :-P Só gostaria de fazer a ressalva de que não vou falar necessariamente de game music (a música de jogos); por isso que coloquei o título da coluna desta maneira e não de outra.

Assim como acontece com a história (enredo), a música em games passou por processo semelhante. Embora seja possível estabelecer uma relação, quero deixar claro que não falo de efeitos sonoros, mas de música mesmo. Em Pong, tínhamos alguns efeitos sonoros, mas não havia música. Podem até dizer que aqueles ruídos simplistas “soam como música aos meus ouvidos”. Mas não são música; podem até ter algo de música (o som, provavelmente, e por evocarem lembranças e emoções), mas não são música no sentido estrito do termo. Algo semelhante com quando dizemos que “folhas dançam ao vento”: não ali uma dança de fato, mas o que vemos tem uma série de elementos da dança enquanto tal (o movimento, por exemplo).

Acima, tela de Bobby is Going Home. Na minha opinião, um dos jogos mais divertidos de Atari 2600. Pena que joguei pouco quando era moleque.

Enfim, houve um momento em que aconteceu uma mudança. Os efeitos sonoros foram se convertendo em música. Analogamente à descrição geral do ambiente de um jogo foi se tornando em história (enredo). Naquele documentário do Discovery Channel sobre videogame, falam de Space Invaders por ter sido o primeiro a fazer com que sons fossem demonstrando a urgência da tarefa de derrotar naves alienígenas se tornando mais rápidos e intensos com o tempo, como se seguissem as batidas de um coração desesperado por salvar a Terra. Talvez seja, mas queria usar um exemplo em que isso seja mais evidente.

E nem é preciso ir muito longe. No bom e velho Atari 2600 há o exemplo perfeito para o que quero dizer. Inclusive era um jogo que eu tinha; só não jogava muito porque era difícil para mim (que era muito novo). É o game Bobby is Going Home. Embora alguns provavelmente possam dizer que é heresia, a música que toca é uma clássica de diversos hinários cristãos protestantes (e uma das poucas conhecidas para além das paredes eclesiásticas). A mais conhecida é sem dúvida “Nearer my God to Thee” (cuja versão em português tem o nome de “Mais perto quero estar”) que é tocada pelo quarteto de cordas no (enfadonho) filme Titanic. Esta que toca neste clássico para Atari 2600 é “What a Friend I Have in Jesus” que no hinário nacional tem o nome de “Quão bondoso amigo é Cristo”. É uma melodia simples, daquelas que grudam na cabeça, que se repete continuamente por quatro estrofes, sem refrão (até porque é, na verdade, um poema musicado). Devo acrescentar que é um tanto difícil de tocá-la na bateria dependendo do andamento. :-P Mas recomendo que escutem essa versão sul-coreana com um quarteto de cordas e uma flauta transversal, uma das melhores que já ouvi (só por não ter eu tocando, como acontecia na orquestra em que tocava, já é uma evidência de sua melhor execução. :-D )

Este é um exemplo bem claro de uma música que passou a fazer parte de um game. Tudo bem que a música é de um século antes do jogo, mas isso não importa muito. Uma das prováveis razões pela adoção dela seria por ser mais barato usar uma música que está em domínio público; mas podem ter havido outras. Contudo, o objetivo aqui não é especular sobre esta música em específico; basta tê-la como horizonte de reflexão. Uma busca rápida pelo Google já mostra que essa música não ficou somente presa em minha cabeça; isso aconteceu com outras pessoas também (para o bem ou para o mal – alguns gostam da música, outros a odeiam; o que é normal com relação às artes em geral). Isso não quer dizer que a música seja essencial a este jogo, mas que acabou se mostrando como um elemento importante a ele. Tão importante que não conseguimos pensar o jogo sem esta música.

Poderíamos dizer, sem medo de errar, que jogamos com a música. Ela faz parte de todo o campo do jogo e nos mantém dentro dele. É um objeto em jogo relevante. Isso acontece com qualquer game que possua música: nós jogamos com a música de jogos que, vejam só, têm música. Sejam importantes ao mundo do jogo ou não.

Contudo, existem aqueles jogos em que a música é o elemento essencial. São aqueles jogos que chamamos de musicais. Nestes casos, a música não é somente um elemento com que jogamos, mas consiste no cerne do game, em seu objetivo e na tarefa que temos que cumprir nele. Seria muito simples me fiar de games como Guitar Hero e Rock Band para exemplificar isso, mas também não vou avançar muito para trás na história dos videogames. Vou ficar pelos 32 bits mesmo. PaRappa the Rapper, por exemplo, é um jogo musical. E o que isso quer dizer? quer dizer que, nele, jogamos com música. Na verdade, a música é o próprio jogo.

Buytendijk (outro cara a respeito de quem vão ler muito nestas colunas) afirma que o músico não brinca (ou joga – lembrem-se que ele é holandês e acaba seguindo o mesmo padrão das línguas germânicas de ter somente um verbo, spil no caso, para designar ambos os fenômenos) com o seu instrumento musical, mas sim com a música. De igual modo, ao jogarmos PaRappa the Rapper, não jogamos com PaRappa, mas sim com a música. A música que é o essencial e consiste no próprio jogo. O mesmo acontece com seu jogo-irmão: UmJammer Lammy.

Assim como acontece com a história (enredo), a música nos games hoje passa por critérios bem mais exigentes. Pede-se que haja uma boa trilha sonora juntamente com um bom enredo (mesmo que seja um jogo somente com puzzles às vezes). Igualmente, ambas as coisas podem ser irrelevantes em certos jogos, importantes em outros e essenciais em outros mais. Enquanto que em games que consistem puramente em música nos aproximamos um pouco da experiência de tocar um instrumento musical ou até mesmo de ouvir música (pois em ambos os casos jogamos com música), aqueles que consistem puramente na história (enredo) se aproximam da experiência de ler um livro (embora mais recentemente seja mais comum que se aproxime do assistir um filme).

Enfim, o que quero compartilhar hoje é exatamente isto. A música nos games pode ter diversos papéis. Depende de que jogo estamos falando. Jogar (ou tocar) música pode até mesmo ser a tarefa de um game; ou até não fazer a menor diferença se está presente ou não.

É isso, hoje fico por aqui. Não quero enrolar demais porque devem estar cheios de coisas para fazer ainda esta semana para se organizarem, viajarem ou comer bastante neste final de semana. Eu, pelo menos, estou ansioso pela ceia. :-D

De qualquer modo, não posso deixar de fechar esta coluna sem antes desejá-los um Feliz Natal. Que seja um excelente feriado. É uma data familiar, então, que possam desfrutar bem de suas famílias. E não pensem que família é só quem tem o mesmo sangue. :-P Um bom amigo é mais chegado que um irmão, já disse um sábio certa vez. Lembrem-se destes também então.

Afetuosos abraços e até a próxima!

PS: Meu presente fica para depois. Mas já está reservado, fiquem tranquilos. :-P

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.