Academia Gamer: Gosto

“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Quando falamos de “gosto” a primeira coisa que pode vir à nossa mente é mais uma dupla expressão do que uma definição qualquer: “gosto disso” e “não gosto daquilo”. Talvez fosse mais válido pensar a questão de gosto como coisas em que mais confiamos e às quais mais facilmente nos entregamos à aventura. Por exemplo, nós levaremos a sério mais facilmente um álbum medíocre de uma banda que gostamos.

É interessante como nossas preferências e confianças vão se modificando com o tempo. Não sei se “amadurecendo” seria um termo correto já que em muitos casos não abandonamos aquilo que outrora nos agradava; somente está em um segundo plano (ou, se quiserem, funcionando como um “Plano B”). Usando minha própria experiência como exemplo, eu ainda ouço o rock que ouvia quando criança. Somente ampliei meus horizontes dentro dele (passando pelo heavy metal, rock progressivo e outras vertentes) e me aproximei de outros estilos que antes tinha ojeriza como o jazz e o blues. Ainda assim, minhas bandas favoritas ainda são de rock; não por saudosismo, mas porque ainda me agradam. A música clássica e barroca é um caso à parte; embora conheça hoje mais compositores e peças do que antigamente, meu gosto variou pouco neste sentido.

Esta não é a capa da versão que tenho aqui em casa, mas tudo bem. O Anjo da Morte, Pântano de Sangue e A Droga do Amor são outros títulos do mesmo grupo e autor que devem conhecer.

Com livros acontece o oposto. Embora ainda me pegue pensando em reler meus livros de escola, não vejo como seria possível regozijar-me com eles nos dias de hoje. Atualmente, me divirto com Nárnia (que talvez fosse uma exceção se tivesse conhecido quando criança), John Milton e Dante muito mais do que imagino que me divertiria com os impressos da coleção Vaga Lume, ou alguma história dos Karas pelo Pedro Bandeira.

Com games, no meu caso, acontece uma mistura de ambas as coisas. Alguns dos jogos com que me divertia quando criança como Alex Kidd, Sonic, Phantasy Star e OutRun ainda me dão vontade de jogar de vez em quando. Não jogo nenhum deles para “relembrar os velhos tempos”, mas porque eles ainda me seduzem deliciosamente. Por outro lado, alguns outros não me atraem mais a não ser como mero saudosismo.


Perceberam a diferença? Pensando o “gosto” da maneira que coloquei antes, não parece ser uma mera questão de um ser melhor do que outro. Pela minha experiência, eu percebo que consigo levar mais a sério e confio muito mais nas aventuras que posso desfrutar em certos jogos do que em outro. Claro que isso não significa que conheço totalmente os jogos que prefiro porque, se ainda os jogo, é porque ainda há risco ao jogar e surpresas pelo caminho. Se toda vez que jogasse Sonic eu não perdesse argola alguma, nem morresse uma vida sequer, se não me preocupasse com a precisão de um pulo na Marble Zone, não o jogaria mais porque ele não teria, segundo dizemos, “a menor graça”.

Nós ampliamos nosso horizonte de jogos e vamos deixando de lado aqueles que não nos cativam mais. Não é somente uma questão de idade ou “preferência pessoal”. Nós não deixamos de gostar de certo tipo de jogo por “ficarmos mais velhos”, ou porque “não somos mais crianças”. Eu ainda jogo de vez em quando o Castle of Illusion para Master System mesmo sendo um jogo que muitos chamariam de infantil. Mesmo quando refletimos e notamos que games de PCs sempre foram “mais maduros” desde a popularização dos computadores pessoais, isso se dá muito mais pelo fato de os usuários de tais máquinas serem já mais velhos do que por serem jogos voltados para uma idade específica. Mas estou me desviando um pouco do assunto.

Sonic pensando algo que, polidamente escrito, seria um “me ferrei!”. Prestigiem o artista clicando aqui.

Vamos novamente usar minhas experiência pessoal para tentar tornar tudo mais claro. Quando eu era mais novo eu jogava de tudo: plataforma, corrida (de carros e de motos), adventures, ação, RPGs e por aí vai. Contudo, quando comecei a jogar RPG de mesa (em torno dos meus onze anos), voltei meus olhos para Phantasy Star uma vez mais e, por meio dele, desbravei o mundo dos RPGs eletrônicos. Passei a procurar e me interessar. Jogava em minha casa, na casa de parentes e amigos que possuíam consoles que eu não tinha (e até fiz um primo meu começar a se interessar pelo estilo). Hoje, eu costumo dizer que meu estilo preferido de jogo de videogame é RPG, embora jogue muitas outras coisas também.

Percebam que não deixei de jogar nenhum game ou gênero que me interessava antes. Ainda jogo todos os outros estilos, mas se me perguntassem: “qual tipo de jogo você mais gosta” eu diria “RPG” sem nem pensar muito. Embora também tenha a convicção de que este é um conceito muito amplo no reino dos videogames abarcando não só Final Fantasy como também aqueles baseados em qualquer um dos mundos de D&D. Fora a proliferação de jogos “com elementos de RPG” feitos muitas vezes para atrair um público não acostumado a certos tipos de jogos.

O que quero dizer com isso tudo? Nosso gosto não “evolui” no sentido de que abandonamos aquilo que é velho e abraçamos coisas diferentes. Nossas preferências se mantém (ou não) ao mesmo tempo que agregamos a elas coisas diferentes. No meu caso, a experiência que tive com RPGs na infância era mínima (somente Phantasy Star), mas foi isto que abriu as portas durante a adolescência para um reino vasto que ainda me pego querendo desbravar de vez em quando.

Para terminar, não custa lembrar que nós não “jogamos o jogo” e sim que nos “entregamos a ele”. Ao falarmos de “gosto” com aquela ideia subjetivista de que escolhemos o que nos agrada ou não, devo dizer que não sabemos de fato o que significa jogar. Mesmo que algo nos pareça ruim, é preciso levá-lo a sério como se fosse bom; somente depois que navegarmos por águas não mapeadas que poderemos dizer se a jornada valeu ou não a pena.

É isso por hoje. Até o próximo post!

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.