SimCity 2000 (MS-DOS/etc)

Bom dia, amigos leitores do Gagá Games!

Antes de escrever sobre este jogo fiz uma breve pesquisa pois, bem sabia, não deveriam ser poucos os blogs que abordavam SimCity 2000. Porém, apesar de minhas suspeitas estarem corretas, percebi que em sua maioria eram análises breves e muito mais uma opinião pessoal do que uma visão generalizada e desenvolvida, de modo que isso por si só justificou que eu não desistisse de escrever. Hoje venho falar sobre este jogo que, embora não revolucionário, revolucionou! E o que quer dizer isso exatamente?

SimCity 2000 foi lançado em 1993, ano em que o gênero “sim” já não era mais nenhuma novidade. Entretanto, a qualidade do jogo foi tamanha, foram tantos cuidados e tantos detalhes que os sims ganharam um novo fôlego – fôlego esse que culminou posteriormente na série The Sims, que é apenas o jogo mais vendido da história. Mas não fujamos demais ao assunto :)

A Maxis, softhouse da série, vinha contente com o sucesso do primeiro “SimCity”, um dos únicos jogos de simulação que havia feito sucesso como (e talvez até além do) esperado. Como é natural, SC2000 já vinha sendo preparado desde o início da década de 90.

Exemplo de cidade não planejada

Inovações para sua cidade particular

A primeira coisa que notamos na partida inicial de SC2000 é a adoção de gráficos em perspectiva isométrica. Já tratei deste assunto anteriormente, mas nunca é demais falar: em tempos de poucos recursos de processamento, qualquer coisa que simulasse 3D era um assombro. Ainda mais quando rodando em “resolução alta” — 640×480 pixels! Acredite, eu fui um dos donos de placa VGA com incríveis 2 MB e estava ansioso por um jogo que utilizasse “devidamente” a resolução de meu monitor – é claro que ao custo de gráficos menos trabalhados que aqueles rodando em “mode 13h*”, mas isso não vinha ao caso.

O visual está muito caprichado e devo dizer que até hoje é agradável aos olhos. Há inúmeros tipos de construções e cada um conta com seu próprio sprite, sendo que existem inclusive sprites para edifícios “em construção”, o que chegou a parecer um luxo na época do lançamento.

A nova perspectiva possibilitou novas maneiras de se explorar o terreno na cidade, contando agora com elevações que influenciam diretamente o gameplay. A topografia pode ser seu grande aliado ou um obstáculo persistente; tudo depende de seu planejamento prévio conforme expande a cidade.

Se você pode crescer para cima, por que não também para baixo? Agora é possível utilizar o subsolo para instalações hidráulicas – obrigatório – ou construção de metrôs – opcional, porém muito útil. Há quem diga que ficar colocando canos na cidade não faz parte da vida de um prefeito. Concordo, mas convenhamos: seu trabalho em SimCity não é exatamente o de um prefeito, mas sim de um administrador atemporal semi-Deus, ou algo que lhe valha :D .

Ainda marcando — mas não limitando-se apenas a isso — as inovações em relação ao Simcity clássico, agora temos novas construções: escolas e universidades, prisões, parques, novos tipos de transportes públicos e vias… é diversão para muitos anos de jogatina caso você decida tentar todas as diferentes abordagens de cidade possíveis.

O ponto de partida

*PS nerd: mode 13h era uma bela gambiarra – no sentido literal mesmo – não documentada, amplamente utilizada pelos jogos da primeira metade dos anos 90, onde, ao custo do uso de uma resolução mais baixa e não muito ortodoxa (320×200), conseguia-se melhor desempenho e mais recursos de vídeo em placas VGA.

Esse negócio de administração é meio complexo…

Palavra, se eu fosse um professor universitário de administração ou logística, um de meus trabalhos seria desenvolvido em classe: começar uma cidade em SC2000 no modo hard e fazê-la prosperar dentro de certos parâmetros pré definidos.

Fazer sua cidade crescer pode não ser um grande desafio desde que você compreenda alguns macetes do gameplay. Entretanto, criar uma cidade planejada e vê-la tomar a forma que você deseja — e não a que o jogo demanda — é um desafio que me tomou anos num ritmo de “jogatina casual não tão casual assim”. Na verdade foi só em 2010 que consegui criar minha “cidade ideal”, depois de centenas de tentativa ao longo de praticamente duas décadas.
A parte triste disso tudo é que é possível jogar SC2000 e chegar bastante longe sem ter explorado tudo o que o título tem a oferecer. Possibilidades como a “query tool”, ferramenta para verificar cada bloco de sua cidade, podem facilmente passar batidas, o que é uma grande perda.

Logo no início você pode escolher começar sua cidade nos anos de 1900, 1950, 2000 ou 2050, o que influencia o tipo de construções disponíveis. Há também a opção de iniciar com $20.000, $10.000 ou uma dívida de $10.000 — também conhecida como “suicida”. Dadas as escolhas iniciais, sempre sugeri que as pessoas começassem em 1900 para aproveitar a evolução tecnológica ao longo da vida de sua cidade. No quesito verba, prefiro jogar com $10.000, mas a verdade é que já experimentei todas as combinações e, em geral, posso apenas afirmar que encarar a dívida é hardcore demais para mim…

Brincando com o encanamento

Como a coisa vai tomando forma

Depois de decididos nome, orçamento e ano de início, nos deparamos logo com um jornal anunciando a fundação da cidade. O jornal logo de cara é na verdade um bom conselho: esteja sempre atento ao “feedback” que o jogo oferece à sua administração. É um lance bastante bacana e uma interatividade bem vinda, mesmo que sob forma de textos pré definidos – muitos com algumas piadas interessantes.

Com um vasto espaço a explorar, o jogador deve começar sua cidade, preferencialmente já com alguma estratégia em mente. Coisas básicas como prover os espaços com água e eletricidade são cruciais. A partir de então tudo é uma grande ciranda, onde subimos e abaixamos impostos, criamos programas de incentivo ao comércio ou campanhas anti-drogas, num belo leque de opções que, de forma mais ou menos direta, moldam o perfil de sua cidade. Sim, o perfil, pois ela pode se tornar um grande centro empresarial, comercial, turístico, e nada disso é decidido em poucos cliques. É um trabalho de anos – anos dentro do jogo, é claro.

As opções de se criar terrenos para casas, comércio ou indústria, contam com possibilidade de ser mais ou menos densas e onde você as coloca influenciará muito a qualidade de vida dos cidadãos. O controle de poluição logo se mostra necessário e então é preciso decidir por fontes de energia mais limpas e, consequentemente, menos eficientes e mais caras. Uma balança interessante.

Em SC2000 sua população demanda certas cosias — são pidões mesmo! Seja por uma marina, um parque ou até para protestar quando você constrói uma usina perto de áreas residenciais. Novamente elogio o nível de interação jogo/jogador.

Com o passar dos anos novas tecnologias vão tornando sua vida mais completa. Fontes de energia até mesmo curiosas surgem. Moradias futuristas que, eventualmente, migram para o espaço, caso você seja um bom administrador. Tudo muito trabalhado. Entretanto, nem tudo são flores em sua bela cidadela. Desastres naturais estão sempre por perto, causando estragos, às vezes gigantescos, desestruturando toda sua estratégia tão calmamente pensada. E mesmo que você seja uma cidade num país como o Brasil, onde quase sempre não existem tremores de terra ou furacões, suas próprias indústrias, ao envelhecer, podem acabar explodindo e, se não bem colocadas no mapa, levarão junto parte da cidade.

Conclusão

Não busco aqui comparar SC2000 a títulos como Civilization pelo simples fato de ser uma comparação infeliz. SimCity é um jogo  ímpar, o que quer dizer que, mesmo que existam concorrentes, no quesito “simulador de cidades contemporâneas” é uma competição quase nula.

Belos gráficos, trilha sonora cativante (mesmo que levemente repetitiva), criatividade da equipe de desenvolvimento e um fator desafio que se adapta aos mais diferentes jogadores fizeram deste clássico, bem, um clássico — a palavra já diz tudo. Outros “Simcities” vieram, mas acho que nenhum marcou tanto sua época como o 2000. Se tivesse mais opções talvez tivesse sido um título massante. Da maneira como foi feito ficou muito bem calibrado. Minha única grande reclamação é, como já dito, a possibilidade de se ir longe no jogo sem aproveitar todos seus recursos.

Ah sim, se você pensa em jogar atualmente, fique feliz que a coisa roda lisa no DOS-BOX :) .

Escrever me deu vontade de começar uma nova cidade =)

 

About Cássio "Pé na Cova" Raposa

Estudante de "Jogos Digitais", futuro retrogame designer e vegetariano convicto, viveu a gloriosa época dos monitores de fósforo monocromáticos e sobreviveu para contar como era a vida em baixa resolução :)