Sempre fui suspeito quando avaliando jogos isométricos para PCs. Para quem nasceu de 95 para cima é difícil compreender, mas acontece que o truque de colocar as coisas em perspectiva, mesmo que não passasse de mera ilusão, dava a impressão de que o mundo do jogo era muito mais amplo.

Heimdall 2 foi meu primeiro contato com a breve série e, por ter jogado primeiramente o segundo título (está ficando confuso?), acabou que o anterior não me chamou tanto a atenção, embora eu tenha jogado e apreciado muito.

O trabalho aqui é obra da Core Design, mais conhecida pelo surgimento da aclamada série “Tomb Raider”. Como é de se esperar, para a Core, houve vida antes de Lara Croft, e uma vida muito bem trabalhada, diga-se de passagem. OK, verdade seja dita, o desenvolvedor mesmo foi a “The 8th Day”, ficando na mão da Core apenas a distribuição do jogo.

Em Heimdall, como o título sugere, nos vemos envolvidos pela atraente mitologia nórdica, de uma maneira que poucos jogos já possibilitaram, por diversos motivos, como poderemos conferir a seguir. 

Primeiras impressões

Ao executar H2 somos deparados com uma bela tela de abertura, com um “magic tune” pra filme de bruxaria algum botar defeito. A música de início é uma das mais simpáticas de todo o jogo e acompanha o logo “Heimdall 2” com um efeito que muito lembra os demos de tecnologia do tempo dos Amiga 500.

A primeira coisa que percebemos em H2 é o capricho dedicado aos gráficos – principal motivo que me fez querer ver do que se tratava o jogo. A visão isométrica foi muito bem adotada e o visual como um todo é muito cativante, principalmente se levarmos em conta o ano de lançamento. Há detalhes não necessários para o andamento do game, o que era considerado supérfluo antigamente, embora muito bem vindo.


A paleta de cores foi bem escolhida e casa perfeitamente com o estilo cartunizado do título.

Quando digo que, graficamente, H2 é um exemplo de qualidade, quero dizer tanto em sprites quanto em cenários e, na verdade, não saberia dizer qual dos dois quesitos prevaleceria como mais bem feito. O fato é que, em dados momentos, apenas a beleza do jogo nos prende, quando desejamos atacar o monitor com golpes de teclado graças a um movimento errado que acaba com uma sequencia de jogadas minuciosamente calculadas. Nada que estrague a diversão.

A trilha sonora é muito gostosa de se ouvir, bem trabalhada como em tantos outros jogos da época, como costumo salientar. Infelizmente, entretanto, a maior parte do jogatina é embalada por um tema repetitivo e muito menos empolgante que as demais músicas, o que é um pouco frustrante.

De um modo geral, o game é envolto em um clima de magia extremamente cativante e fatores como os citados acima são peças chave nessa interessante brincadeira.

História

Sua aventura é encarada por dois personagens – Heimdall, filho de Odin e guardião de Asgard, e Ursha, uma valquíria. Vamos a uma breve introdução à mitologia nórdica para que, aqueles que estão mais perdidos, localizem-se o suficiente para curtir o jogo (quem disse que vídeo game não é cultura?):

Odin – Principal Deus nórdico, uma espécie de Zeus das terras geladas;
Asgard – Reino dos Deuses nórdicos, em contraste com o mundo dos mortais, Midgard;
Valhala (lê-se “Valrrala”)– Castelo construído por Odin para receber os bravos guerreiros, destinados a, futuramente, encarar a batalha de Ragnarok. Qual a ligação com o famoso MMO? Não sei, nunca joguei (não contem ao meu chefe);
Loki – Deus/gigante do fogo, trapaça, magia e, constantemente, assume o papel de vilão em histórias e jogos contemporâneos que retratam a mitologia nórdica. Não é, entretanto, realmente alguém ruim;
Valquírias – Nove jovens semi-deusas (filhas de Odin garanhão com um oráculo) que escolhiam, dentre os guerreiros mortos em batalhas, quais entrariam em Valhala.
*não sou especialista em mitologia nórdica, portanto perdoem eventuais más interpretações minhas 🙂

Voltando à história de H2… No primeiro game, Heimdall recuperou as três armas sagradas roubadas por Loki (lá vai o coitado ser tachado de vilão novamente) – o martelo de Thor, a espada de Odin e a lança de Freyr. Agora, justificando uma continuação, Loki foi punido, perdendo alguns de seus poderes e, desta forma, podendo andar em Midgard, entre os mortais, onde o deus “brincalhão” formou um exército com o propósito de vingar-se do restante do panteão.

Para impedi-lo de uma vez por todas, os demais deuses decidem fazer uso de um amuleto capaz de aprisionar qualquer divindade. Acontece que, para evitar o uso indevido de tão poderosa ferramenta, Odin, anteriormente, a dividiu em seis partes e cabe agora a você, Link, digo, Heimdall, reuni-las. Para sua ajuda, como já citei, escalaram Ursha.

Ficou empolgado com a história? Então que tal ir além?

Em Heimdall 2 é possível escolher o idioma nórdico para se jogar. Quero ver quem encare o desafio!

Jogabilidade

Aqui encontramos o grande problema de Heimdall 2. A jogabilidade está longe daquela “polidez” de que os jogos isométricos tanto necessitam.
Como alguns leitores podem se lembrar, jogar nesta perspectiva me é sinônimo de virar o teclado na diagonal. Não bastando, o controle é um misto de teclado e mouse que, por mais que funcione, passa longe de ser funcional.


Quando você aperta uma seta para movimentar seu personagem, ele… desembesta e segue reto “sem amanhã”, a não ser que um obstáculo o impeça de continuar – um tipo de movimentação nada desejado em horas de combate. Para contornar essa infeliz abordagem de movimentos, você deve “sacar” seu escudo, fazendo com que nosso herói ou nossa heroína deixe de caminhar. A coisa evolui até o nível de virar um tique, porém é o que permite avançarmos ao longo das batalhas e puzzles.

Ainda sobre puzzles, vale prolongar o comentário. Embora alguns sejam massantes e dependam fundamentalmente de seu timing e perícia em movimentação – um grande desafio – muitos são bastante interessantes e, talvez, um dos principais atrativos do gameplay.

Você poderá alternar entre Heimdall e Ursha a qualquer momento, sendo que tal alternância não altera capacidades de jogo – mas adiciona um bom nível de estratégia quando tentando não morrer em batalhas, além de dobrar seu espaço de inventário. Itens e magias são cruciais ao longo de sua jornada.

Se o primeiro Heimdall era mais um RPG do que qualquer outra coisa, agora encontramos um jogo dividido entre hack ‘n slash, puzzle e adventure. Uma troca interessante, cujo resultado dividiu opinião entre os jogadores da época.

Mas a coisa fica boa?

Mesmo com a complicada jogabilidade para nos atrapalhar, acaba que H2 é um grande título sim, por um simples motivo: Se os controles não são devidamente calibrados, o mesmo não pode ser dito sobre o perfeito equilíbrio entre ação, exploração e puzzles.

Depois de pegar o “jeitão” do gameplay, não tarda para que o jogador comece a navegar pela história com a perfeição de uma locomotiva – embora os cenários variem, há um trilho guiando constantemente seu caminho, mesmo que nem sempre isso seja perceptível.


Os puzzles são variados, indo desde simples corredores onde deve-se evitar obstáculos, até séries de salas onde suas ações em uma interagem com as demais, dando muito pano para a manga.

É assim simples: a variação e a maneira como as quests se encaixam não deixam sala para o tédio, fazendo de H2 um jogo muito viciante – só perdendo pontos realmente quando um puzzle que poderia ser bom é arruinado pela má jogabilidade.

Conclusão

Como em “Mystic Towers” ou mesmo “Cadaver”, o principal fator para se gostar de H2 está na proficiência em controles para jogos isométricos de cada jogador. No meu caso, sou terrível neste gênero, mas o considero tão atraente que acabo vencendo – melhor dizendo, batalhando constantemente com – minha imperícia.

Quase esqueci de citar que os diálogos no título são bem trabalhados, contribuindo bastante com a imersão do jogador.


Tirando alguns bugs – normalmente relativos ao posicionamento do personagem na tela – Heimdall 2 é um jogo bastante sólido, pecando apenas no quesito jogabilidade, o que acredito ser bastante perdoável, desde que o resto faça por merecer. E, neste caso, é exatamente o que acontece.

Heimdall 2 (1994 – MS-DOS / Amiga)
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5 ideias sobre “Heimdall 2 (1994 – MS-DOS / Amiga)

  • 19/07/2012 em 1:37 pm
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    parece um jogo interessante de se conhecer. a visão me lembra Landstalker do Mega…a qual tenho traumas pelos puzzles. e já sabia da história de Heindall, dá para conhece-lo em Shin Megami Tensei no Snes…para agrega-lo ao seu time de criaturas…enfim, belo review.

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  • 19/07/2012 em 1:46 pm
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    Fala Raposa. Mais um jogo que eu não conhecia. Os gráficos parecem bacanas. Porém esse lance dos controles é que peca. Eu sempre preferi jogar um jogo com péssimos gráficos mas com uma ótima jogabilidade do que um jogo lindo graficamente porém com péssima jogabilidade.

    Mas vou dar uma olhada no meu set e verei se tem este jogo por lá (DOS ou Amiga) e vou experimentar. Falow! 😀

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  • 19/07/2012 em 4:02 pm
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    sinceramente não conhecia esse jogo…na época comprava muitos jogos demos de revista e pegava emprestado com amigos,,,essas limitações deixa passar muita coisa boa em termos de pc!!!!!!clássico!!!!

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  • 20/07/2012 em 7:30 pm
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    leandro(leon belmont)alves,
    Obrigado, grande Leandro! O jogo é meio durão no início mas acaba sendo uma boa memória para jogadores veteranos.

    piga, é, jogabilidade, às vezes, fala mais alto, mas no caso de Heimdall da pra se virar pois acabva dependendo muito de exploração. Enfim, dê uma conferida quando puder 🙂

    helisonbsb, tem muita coisa boa que achávamos escondidas nessas revistas de 1000 games for windows mesmo heheh.

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  • 20/07/2012 em 9:56 pm
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    Realmente.Lpki é um pouco complicado, as vezes ele é heroi como quando foi ajudar a recuperar o martelo de thor, outras vezes ele é um fdp como quando matou o deus da verdade e ele que lidera o exercito do apocalipse no ragnarok

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