Censura nos Retrogames: Maniac Mansion (NES)

ATENÇÃO: O artigo abaixo foi totalmente escrito pelo camarada João Luís e publicado originalmente no site NES Archive no dia 22 de Março de 2008. Estou postando este interessante artigo aqui no Gagá Games com o único intuito de compartilhá-lo com os amigos que visitam o blog.

Introdução

Maniac Mansion foi um dos melhores e mais famosos jogos no estilo adventure já criados. E provavelmente é, juntamente com Secret of the Monkey Island, um dos mais aclamados da história. Lançado em 1987, originalmente para o computador pessoal Commodore64 pela LucasFilm Games, divisão da LucasFilm responsável por jogos eletrônicos, rapidamente ganhou sucesso e popularidade. Então, mais do que depressa recebeu inúmeras conversões para diversas outras plataformas, como IBM-PC, Amiga, Apple II, Atari ST e, como não poderia deixar de ser, para o Nintendo 8-bit.

Versão para NES & Famicom

Por algum motivo, a conversão para o console da Nintendo não foi feita pela própria LucasFilm, e sim pela japonesa Jaleco. Incialmente, o jogo foi lançado no Japão para o Nintendo Famicom em 1988, esta versão foi totalmente programada pela Jaleco, um jogo feito do zero, sem a utilização do sistema SCUMM. Ela trazia gráficos e cenários bastante diferentes das versões para computadores, os personagens eram no estilo Super Deformed, ou seja, bem pequenos e semelhantes aos de diversos jogos japoneses da época, tal adaptação gráfica foi feita para atrair mais o público oriental acostumado com esse tipo de cultura. Essa versão japonesa, curiosamente, não possuía um sistema para salvar o jogo, e sim o infame password, com inacreditáveis 104 caracteres a serem anotados, mesclando letras japonesas.

Comparação entre as versões japonesa (esquerda) e americana (direita) de Maniac Mansion. Perceba que além dos gráficos e cores, o sistema de menus também é diferente.E é claro, na versão japonesa não há censura.

Dois anos depois, em 1990, a Jaleco lança o jogo em território americano para o NES, mas desta vez a programação foi feita pela produtora original, LucasFilm Games, portando o sistema SCUMM diretamente para o console, e apenas sendo publicado pela Jaleco. Um fato que muitos desconhecem, é em relação aos gráficos da versão americana de Maniac Mansion, que são completamente diferentes da versão japonesa, dessa vez os produtores se empenharam para criar um jogo com o máximo de semelhança nas versões originais para computador, trazendo personagens grandes e cenários bem mais detalhados.

A censura da Nintendo americana

Entretanto, a equipe não contava que a censura, a qual a Nintendo impunha naquele tempo, iria trazer tanta dor de cabeça. A primeira coisa a ser feita por parte dos produtores seria enviar para Nintendo uma cópia do jogo e, em separado, todo o texto contido nele, para que a censura pudesse procurar palavras consideradas inapropriadas, e também referências religiosas, que eram sumariamente proibidas.

Eis então que começam a surgir os problemas. A Nintendo obrigou a produtora a retirar uma série de elementos originais do jogo, desde imagens espalhadas pela casa, cenas de diálogos entre os personagens, alterar frases e remover objetos, alegando que tudo isto poderia ser ofensivo em um “jogo feito para a família”.

Com certeza as partes mais censuradas foram as falas da personagem EDNA, esposa do louco Dr. FRED, ela a todo o momento exclamava frases com alusões a necessidades sexuais, mas sempre com efeito cômico e que, nas versões originais, faziam os jogadores rolarem de rir.

Existe ainda, uma versão BETA do jogo, que saiu em uma pequena prensagem de cartuchos, e algumas pessoas adquiriram de alguma forma. Inclusive, algumas revistas da época chegaram a extrair imagens dessa versão para produzir as matérias, que podem ser conferidas em algumas imagens presentes neste artigo, elas são de um guia de jogo publicado em alguma edição daquele tempo.

Seguiremos com alguns fatos

- No “Tentacle’s Room” havia um cartaz na parede escrito “DISCO SUCKS!” (seria algo como “Discoteca é uma droga!”). Ele foi removido, pois a palavra SUCKS também é uma expressão que denomina o ato de “chupar”. Ao que parece, a Nintendo não pediu para remover o poster, mas os programadores o fizeram após receberem o pedido para a alteração da palavra Sucks da frase “sugar o seu cérebro”, que pode ser conferida mais adiante no artigo, onde o ato de “sugar” ou “chupar”, daria um efeito muito ‘gráfico’ ou explícito demais.

- No banheiro de “Dead Cousin Ted”, na parede acima da banheira, há uma frase que diz “FOR A GOOD TIME – EDNA 3444″. A tradução seria mais ou menos “Para bons momentos – EDNA 3444″. Isso daria uma alusão as necessidades sexuais de EDNA, onde ela deixa seu número de telefone para que alguém possa procurá-la. A Nintendo pediu para que isso fosse removido ou amenizado, mas a frase não poderia ser completamente retirada, pois o telefone era um evento importante no jogo, então mudaram para apenas “CALL EDNA 3444″.

- Em “Ted’s Room” existiam dois cartazes na parede, um deles era um calendário com uma mulher em roupas de banho, e o outro era um pôster semelhante ao de uma revista Playboy, mas com a foto de uma múmia. A múmia estava completamente coberta, sem pele aparente. Ambos tiveram de ser removidos.

- Em um dos corredores da mansão, havia uma estatua clássica de uma mulher nua.
Os produtores tentaram convencer a Nintendo, mas no fim das contas, a estátua também foi retirada.

- Em um dos cômodos da mansão, existem várias máquinas de Arcade com jogos. Um deles se chamava KILL THRILL (Emoção da Matança). A palavra KILL (matança) foi considerada violenta pela Nintendo, então o nome seria mudado para MUFF DIVER. Infelizmente, na lista da Nintendo de coisas a serem censuradas, existia a seguinte linha: “A Nintendo não irá aprovar cartuchos para NES com conteúdo sexualmente sugestivo ou explícito”.

MUFF DIVER é uma expressão relacionada a uma relação sexual entre mulheres, vai entender porque os produtores queriam colocar esse título… logicamente ele foi rejeitado. Talvez tenha sido uma bricadeira para com a Nintendo, que rejeitou o título original, o qual não era muito diferente da realidade dos jogos do console.
No fim, para minimizar o problemas de espaço para o título na máquina de Arcade, eles escolheram o nome TUNE, que também era de 4 letras, assim como KILL. E ficou TUNE DIVER.

- Na primeira cena em que SANDY está aprisionada com o Dr. FRED, ele diz que iria “sugar seu belo cérebro”. A Nintendo mandou modificar essa frase, mas não explicou o porquê. Então os produtores se perguntaram se o motivo era por machucar uma inocente mulher, por o cérebro ser uma parte vital do corpo humano ou então pelo horror de ter o cérebro danificado. Depois ficaram sabendo que era pelo ato em si, que poderia trazer a mente das pessoas a cena de um cérebro sendo sugado. Então eles alteraram a frase para “remover o seu cérebro”.

- Quando o WEIRD ED vai conversar com sua mãe EDNA em uma determinada cena, sobre seu pai Dr. FRED, ele diz: “Bem, mãe! Eu estou preocupado com ele. Bem, mãe, estou preocupado! Ele não come há 5 anos. Sim, isso tudo! E ele está sempre levando aqueles corpos para o porão, e ele carrega esses corpos para lá a noite!” – A Nintendo entendeu essa frase da maneira mais inusitada possível, ela deduziu que o Dr. FRED não comia há 5 anos, pois ele seria um canibal e estaria comendo os corpos que levava para o laboratório. Esse diálogo então teve de ser alterado, mudaram a parte “Ele não come há 5 anos” para “Ele não dorme há 5 anos”, para que pudesse explicar como o Dr. FRED nunca era visto em seu quarto de dormir.

- Quando EDNA captura algum personagem, e o joga no calabouço, ela diz algumas frases. Se um menino é capturado, na versão original ela dizia: “Como fui idiota. Eu deveria ter te amarrado na minha cama!” e quando é uma garota: “Você tem sorte de não ser um rapaz, ou você ia estar com GRANDES problemas!” – Isso, de fato, era uma alusão sexual, então iria contra as regras da Nintendo. Os textos acabaram sendo mudados para coisas como: “Você estará a salvo aqui até a polícia chegar!” ou “Espere só até eu falar com sua mãe!”

- A Nintendo descobriu que existia a possibilidade de poder matar o hamster no microondas, e mandou remover isso imediatamente, mas não antes do jogo ter vendido centenas de cópias nos EUA. Entretanto, por algum motivo, não houve uma segunda prensagem do jogo, então todas as cópias americanas incluem o “hamster” e o “microondas”.

- No fim do jogo, durante os créditos finais, aparece a seguinte citação: “NES Scumm System”. A Nintendo entrou em contato com os produtores para saber do que se tratava aquilo, eles perguntavam: “O que é NES SCUMM?”; “O que as pessoas irão pensar ao ler NES SCUMM?” – SCUMM é a sigla para Script Creation Utility for Maniac Mansion, nada menos do que a engine do jogo, que possibilitava ser portado facilmente para diversas plataformas.

A palavra SCUMM é próxima o suficiente da gíria SCUM, que significa algo como “uma pessoa que é um lixo” ou “um ser desprezível”. É o tipo de palavra que os vilões usam nos filmes quando querem se referir com desprezo para com os heróis. A Nintendo não gostou dessa citação, pois os jogadores ao lerem NES SCUMM System, poderiam entender que o NES era um sistema para as pessoas mais desprezíveis.

Conclusão

Existem algumas outras pequenas modificações que podem ser notadas ao longo do jogo, porém, essas foram as mais relevantes. Para os fãs de Maniac Mansion, seria interessante jogar até o fim tanto a versão para PC, quanto a de NES, para perceber todas essas alterações, e muitas outras que lá se encontram.

É bom lembrar que não somente Maniac Mansion sofreu toda essa censura, diversos outros jogos tiveram o mesmo destino. O foco principal da Nintendo era sempre procurar referências religiosas e erotismo. Apesar de todas as críticas que a empresa recebeu durante os anos, ela conseguiu manter uma imagem, de certa forma, “limpa”. Em seus consoles não existiam jogos com temas extremamente pesados, coisas explícitas demais, ou algo que pudesse manchar sua reputação de, se podemos assim dizer, “politicamente correta”?

Agradecimentos especiais

Douglas Crockford – Autor do conhecido artigo que narra as censuras, disponível em: http://www.crockford.com/wrrrld/maniac.html

Flyer Guy – Colaborou com diversos esclarecimentos sobre os fatos aqui apresentados, além de trazer novas citações para o enriquecimento dos tópicos.

Autor do artigo: João Luís

About André Breder

Um gamer que não tem preconceitos: curte tanto os games clássicos, quanto os novos, e nunca deu preferência para nenhum console ou empresa específica do mercado. Tanto que criou um blog sobre games de todas as épocas, chamado Blog do Breder.