Academia Gamer: por que remakes?

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“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Há bastante tempo atrás, conversando com um amigo meu (que não é grande defensor de jogos antigos), ouvi-o dizer que, se os gráficos realmente não importassem para nós, por que haveria um alarde constante para que remakes de jogos antigos fossem feitos? Isso me fez pensar bastante e quero compartilhar um pouco disso com vocês.

Posso falar por experiência própria que me pego pensando várias vezes em “puxa, um remake desse jogo seria sensacional”. E pondero sobre isso com relação a jogos que já admiro da maneira como estão.

Mas antes… Uma analogia! Ah, como gosto de usar esse tipo de recurso. A analogia, a metáfora e o “sentido figurado” acabam dando mais luz acerca de alguma coisa que queremos investigar do que ficar nas definições técnicas e de dicionários.

Acredito que seja muito claro para vocês que jogos mudam com o passar do tempo. Por exemplo, o futebol, quando inventado, era bem diferente do que jogamos hoje. Fora que, praticamente a cada competição mundial, há alterações de regras e de estrutura (sem contar diferenças táticas dos times, porte físico dos atletas etc.). O mesmo acontece com jogos “anciãos”; sejam aqueles com mudanças muito óbvias (como Gamão), mais ou menos óbvias (como Xadrez) e pouquíssimas mudanças (como Ludo — ou Go, embora prefira ficar com o mais conhecido). As regras e estruturas do Gamão mudaram bastante com o tempo; o Ludo, ao contrário, praticamente não mudou (seja sua versão em tabuleiro como a em jardins e praças). Agora o Xadrez, por ser mais conhecido por todos, deve servir melhor ao que quero pensar com vocês.

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Acima, à direita, um tabuleiro de ludo. À esquerda, o que poderíamos chamar de “campo” ou “jardim” de ludo. Sim, é um tabuleiro gigante do jogo.

Nem vou levar em conta a mudança que ocorreu no modo de se jogar xadrez para as regras que chamamos “modernas” e que são ensinadas por manuais e aceitas por qualquer um hoje em dia. Pensemos nos tabuleiros e nas peças. Antes, o tabuleiro não era de madeira ou papel, e sim de pedra. Da mesma forma, as peças eram de madeira nobre, pedra ou, como as peças brancas denunciam, o raro marfim. com o passar do tempo, o tipo de material usado foi sendo modificado conforme o desenvolvimento tecnológico da época. Se na China o jogo que poderíamos chamar de precursor do xadrez era jogado com peças de madeira com ideogramas inscritos, hoje as peças não precisam ter nomes escritos; sua forma já diz de sua função.

Tabuleiros mudaram, peças mudaram, as regras mudaram, tudo mudou. Isso destrói a tradição do jogo? Não. Pelo contrário, a louva e a exalta. Com o passar dos séculos, as pessoas que buscam uma experiência verdadeira no Xadrez encontrarão pouco disso se tentarem recriar o “xadrez original”. O xadrez que conhecemos hoje, em suas diversas formas, com suas diferentes regras, carrega atrás de si toda uma história de jogo.

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Acima, um dos remakes mais conhecidos. À esquerda, uma imagem do Mario 3 original para NES, e à direita seu remake para SNES, presente do Super Mario All Stars.

O mesmo podemos pensar com relação aos games. Eu era da opinião de que remakes eram desnecessários. Era um tanto purista neste sentido; talvez a palavra “ortodoxo” ou “conservador” se aplicasse melhor. Embora, claro, acredite que devemos jogar os jogos antigos tal como são, tenham eles remakes ou não. Isso porque, infelizmente, desde o Channel F, os games são fadados ao esquecimento, à não constituição de uma tradição. Falamos que o “xadrez tem história”; mas o xadrez é “um” jogo. Podemos dizer isso de algum game? De verdade? Mesmo que elenquemos uma série de jogos “clássicos”, falamos do “videogame” de modo muito geral e amplo; é como louvar todos os quadros do mundo, mas nenhum deles em específico e, neste processo, fazer Monet, Picasso, Dalí e Escher serem esquecidos.

Uma “solução” que costumam usar é dizer que um game faz parte de um modo contemporâneo de se fazer arte (uma “arte digital”). Assim, existem games clássicos que são retomados somente por saudosismo como fizeram os renascentistas em sua época com relação à arquitetura, às ciências e às artes (inclusive criando a própria noção de arte que temos hoje – do ártifice ao artista, do trabalhador ao gênio). Mas isso só piora as coisas… É como se houvesse degraus e sempre a necessidade de “inovar”, pulando de um momento para outro. Hoje, pouca gente se interessa pela arquitetura barroca, pelos vitrais góticos, pela pintura medieval. Seriam formas “inferiores” de arte que “tiveram seu tempo” e que agora devem ser abandonadas, relegadas à frieza de exposições sem qualquer uso real naquilo para que foram imaginadas.

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À esquerda, detalhe de um vitral de uma catedral gótica. À direita, detalhe da arte presente em uma Bíblia (não sei precisar em que época embora provavelmente seja medieval).

E pensar isso com relação a jogos é muito perigoso. Não aceitarmos remakes é como negar que um único game possa se configurar em uma tradição. Afinal, um jogo muda com o tempo, com nossas técnicas e tecnologias que surgem. Não quer dizer que formas antigas não mais nos satisfaçam; só quer dizer que uma reestruturação mostra-se importante e uma homenagem àquilo que poderia se tornar pura e simplesmente uma peça de museu.

O que seria da Monalisa sem diversas revisitações até hoje? O que seria das colunas e arcos romanos se ninguém mais se importasse com eles e os utilizassem em formas “remake” (remade seria mais correto, mas tudo bem), com outros materiais e usado em oturas construções?

Querer um remake é querer que um game se torne tradição. Isso é uma coisa que o estabelecimento de uma franquia não pode fazer. Jogar o mesmo jogo de novo várias vezes é revigorante; jogar o mesmo jogo de novo, sob um novo modelo (um remake) também é.

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À esquerda, imagem de fantasy Zone II para a placa System E. À direita, versão refeita para a placa System 16 presente somente na coletânea Sega Ages 2500.

Após essa reflexão, eu deixei de pensar o remake como uma mera “alteração de gráficos e sons” como pensava. Jogar o mesmo jogo revisitado é revigorante; e é interessante ver o que os criadores atuais de jogos, com as novas ferramentas disponíveis, podem fazer para tentar revigorar um game antigo e perpetuar sua tradição. Além, é claro, de também trazer a pessoas mais jovens alguma coisa que as permita olhar para um passado além delas. Assim como futuro somente existe em nosso presente (e nunca chega), também o passado só pode ser vislumbrado e respeitado se alguma porta nos abre para ele. Os remakes servem bem a esse papel, seduzindo não só gamers jovens para este mundo já idoso, como também permite que nós, mais velhos, sintamos um vigor juvenil fortalecido. Um remake permite que haja respeito pelo passado; e só assim que podemos pensar em um futuro de diversão mais rico para as futuras gerações; não de consoles ou arcades, mas para as novas gerações de gamers que, no final das contas, são os jogadores que realmente importam.

Até o próximo post!

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.