Games na era Windows 3.1x

Bom dia, amigos do Gagá Games :)

Hoje falaremos não sobre um jogo, mas sobre toda uma gama de pequenos jogos que, sozinhos, não justificariam uma análise, mas, juntos, são um pequeno exército e influenciam até hoje diferentes frentes do mercado de games.

Antes do surgimento do Windows 95 – e até mesmo durante algum tempo depois de seu lançamento – o mundo dos PCs só conhecia um acesso direto ao hardware através do MS-DOS. O Windows, embora oferecesse ótimos recursos e facilidades, era um obstáculo na vida dos desenvolvedores de jogos – realidade que só veio mudar com a chegada de APIs sofisticadas como o DirectX ou o uso bem feito do OpenGL, mais para a segunda metade da década de 90.
Falaremos hoje sobre alguns jogos de Windows 3.1x, valentes criações que insistiram em tentar trazer diversão mesmo que com gráficos não tão trabalhados e recursos escassos.

saudosa tela do Windows 3.1…

O Windows 3x

Antes de seguir comentando clássicos como “Skifree” é interessante entender um pouco do sistema em questão.

Gamers mais novos podem não acreditar, mas o Windows 3.1x foi uma verdadeira revolução na vida de muita gente. Principalmente em escritórios e empresas, mas, sendo uma forma de acesso muito mais simples do que uma coleção de comandos sobre uma tela preta, não demorou para que a grande maioria dos PCs do planeta rodassem as saudosas janelinhas brancas. Era ligar o computador, ver a “temida” tela do DOS e digitar “win” para chegar a um universo de conforto e segurança – ao menos para os usuários menos experientes :)

O cenário de escritórios ao redor do mundo rodando nosso amigo 3.1x criou um fenômeno muito interessante: suítes de desenvolvimento como o “Visual Basic 3” que deveriam servir para criar, de forma simples e automatizada, aplicativos de escritório, desafiavam os trabalhadores em suas horas vagas. Era como um scrapbook de ideias de jogos. Até onde um programador de um banco, por exemplo, poderia estender sua criatividade?

Numa época em que o antigo desafio de criar botões e interfaces gráficas rapidamente fora por fim vencido, surgiu então o desafio maior: usar destas capacidades cômodas, porém limitadas, para trazer entretenimento ao mundo. Essa foi a força que impulsionou os jogos de Windows 3.1x

O Pacote Básico

Logo após instalado, o sistema contava com dois jogos: “Paciência” e “Campo Minado” – este último tendo substituído o “Reversi” do Windows 3.0.

É quase impossível não conhecer os dois jogos citados e, mais impressionante ainda, muitos jogam diariamente ambos desde 1992. Eu mesmo me pego jogando “Campo Minado” sempre que estou numa ligação longa ao telefone – é simples e, depois de pegar o jeitão da coisa, torna-se quase automático. Sudoku for dummies!

Embora apenas estes dois jogos viessem inclusos, era quase impossível ir na casa de alguém que não tivesse pelo menos Skifree instalado.

Skifree foi um grande trauma na vida de muita gente. O motivo é simples: “como eu passo daquele maldito monstro de neve?”

Caso você não conheça o título, trata-se de uma simples descida de montanha com skis. Você pode controlar o personagem tanto pelo mouse com pelo teclado, havendo também a opção de saltar e até controlar uma cambalhota durante o salto. Diferentes obstáculos servem para te atrasar e o objetivo é meramente fazer a descida no menor tempo possível. Na verdade você também pode batalhar por pontos em um modo de manobra ou seguir um percurso pré definido.

O problema é que, uma vez chegando ao fim da descida, após uma breve pausa, o jogo te deixa continuar descendo a montanha, mas o que ninguém entendia é que neste ponto você já havia vencido o jogo.

pesadelo de muitos.

Para que o jogador não ficasse para sempre esquiando, foi adotado um monstro de neve que, invariavelmente, acabava por almoçar o pobre esquiador (posteriormente descobri que, ao apertar ‘F’ você entrava no ‘Fast mode’ e poderia passar o yeti, vindo a reencontrá-lo após novos 2000 metros). Existiam verdadeiras lendas urbanas sobre como passar pelo monstro e o que aconteceria com quem conseguisse!

O pacote estendido

Ao que parece os programadores da Microsoft eram caras muito empenhados naqueles tempos. Alguns pequenos jogos fizeram mais ou menos sucesso em diferentes regiões do globo, até que a MS resolveu fazer uma compilação, conhecida como “Best of Entertainment Pack”. E realmente o pacote trazia muita coisa boa:

Chip’s Challenge – lançado originalmente para Amiga, DOS e até mesmo Lynx, Chip’s Challenge é um puzzle de visão aérea simples, porém cativante. Você é Chip McCallahan, um nerd que deve passar por uma série de provas para ser aceito em um clube seleto. São aproximadamente 150 fases e, se a premissa do jogo soa boba, o fator de vício é excelente. Uma mecânica do tipo “pegue a chave vermelha e abra a porta vermelha, porém antes passe pela porta azul e…”. Simples e funcional.

 

JezzBall – alvo de inúmeros clones após seu lançamento, Jezzball parte de uma mecânica simples: um número de bolas que aumenta a cada fase (começando com duas) deve ser isolado em espaços pequenos no seu tabuleiro. Para tanto o jogador deve clicar sobre a área livre, fazendo com que uma parede comece a ser construída. Se uma bola acerta a parede em construção ela para aonde foi o impacto e você perde uma vida. Quando mais de 75% do tabuleiro estiver preenchido – e consequentemente as bolas não possam exceder essa área – você avança de fase.

 

FreeCell – dispensando apresentações, FreeCell teve sua primeira aparição no “BoEP”. Minha noiva passa horas jogando isso e até hoje não entendo como pode achar melhor do que Paciência Spider… Enfim, provavelmente o jogo é excelente e quem lhes escreve não é muito letrado em jogos de cartas :)

Rodent’s Revenge – mais um puzzle que pode te consumir algum tempo de vida. Você é um rato e… bem, deve se livrar dos gatos. Para tanto deverá empurrar alguns blocos e interagir com o cenário. A verdade é que o jogo é mais bonito do que desafiador, porém vale a pena dar uma conferida. Como alguns blocos são móveis, enquanto outros são estáticos – presos no chão – talvez a brincadeira lembre um pouco o antigo jogo de tabuleiro, “o Enigma do Labirinto”.

Outros títulos como Rattler Race e Pipe Dreams faziam parte do pacote, mas achei interessante ressaltar os que mais marcaram ao menos meu círculo de amigos.

Outros desenvolvedores

Como o mundo não é feito apenas de Microsoft, há alguns outros títulos que certamente merecem ser relembrados:

Kye (Colin Garbutt) – esse pequeno achado é um dos puzzles mais viciantes com que já tive contato. Você deve mover uma esfera verde e desta forma interagir com diferentes blocos ao longo do cenário – alguns andam, outros destroem terceiros e as combinações são inúmeras. Em poucas palavras, uma espécie de Sokoban mais dinâmico. As fases não demoram a se tornar bastante desafiadoras e, mesmo depois de muitos anos, ainda não cheguei a vencer nem metade delas. Um fator replay incrível e fases que desafiam seu raciocínio lógico.

 

WinWay (x) – infelizmente não fui bem sucedido ao buscar por esse simpático jogo perdido no tempo. Trata-se de um labirinto onde navega-se em estilo “Phatasy Star” – desculpe Gagá, sei que PS era mais bem feito – e o desafio é simples: encontrar a saída sem ser devorado por aranhas gigantes. Simples? Talvez, mas era muito divertido

Indiana Jones and his Desktop Adventures (Lucasarts) – tido por muitos como maçante, IndyDesk foi muito bacana por um simples fato: cada novo jogo gerava um mundinho novo. Eu classificaria o título como “motoboy” – jogos onde pega-se um objeto aqui e entra-se ali e assim sucessivamente. Os gráficos são bastante caprichados, mesmo que a tela do jogo não seja das maiores. Efeitos sonoros praticamente nulos – em todos os jogos aqui comentados efeitos sonoros seriam um luxo. No mesmo molde foi lançado pouco tempo depois “Yoda Stories”, que nada mais é que o mesmo jogo com ambientação de Star Wars.

Conclusão:

Da mesma forma que jogos simples como forca, batalha naval e caça palavras fazem a alegria do pessoal nos celulares/tablets hoje em dia, muitos se divertiram com jogos semelhantes – e às vezes bastante mais complexos – nos tempos em que interface gráfica padronizada era sinônimo de telas brancas e menus simples.

A época do Windows 3.1 foi marcada por amor e ódio no que diz respeito a jogos. Amor pois, para quem trabalhava em escritórios, esses jogos casuais foram uma ótima distração. Ódio por parte dos gamers hardcore que tinham de encarar a boa e velha tela preta do MS-DOS se quisessem uma experiência de jogos “de verdade”, como costumávamos dizer.
No fim das contas, qual desenvolvedor merece mais crédito? É claro que a resposta é clara: depende do público-alvo.

No meu caso, considero-me gamer hardcore – e velho chato – mas nem por isso deixei de curtir não só os títulos citados hoje, como também programas criativos como After Dark ou VisualPlayer.

About Cássio "Pé na Cova" Raposa

Estudante de "Jogos Digitais", futuro retrogame designer e vegetariano convicto, viveu a gloriosa época dos monitores de fósforo monocromáticos e sobreviveu para contar como era a vida em baixa resolução :)