Sony: E3tando que a gente aprende

Em todas as E3, a conferência que eu considero mais chata sempre é, de longe, a da Sony. Jogos manjados, doses cavalares de pretensão do Jack Tretton e outras coisas contribuem com apresentações que, para mim, são mornas e entediantes. Porém, neste ano, devo confessar que cheguei a me empolgar em alguns momentos.

Surpreendentemente, Jack Tretton não foi chato e pretensioso como de costume

Depois da conferência cheia de atitude e vazia de jogos da Microsoft, eu diria que a conferência da Sony começou da melhor maneira possível: com um vídeo exibindo uma cacetada de jogos. Sim, jogos! Que surpresa! E não era só jogo com tiros e explosões não, tinham vários tipos de jogos! Parecia até uma conferência sobre videogame! 

O primeiro a subir ao palco foi o único, o inigualável, o absolutamente intragável Jack Tretton! “Temos os consumidores mais apaixonados do mundo”, ele disse, e em condições normais eu diria que essa é a típica declaração pretensiosa que se esperava dele, do tipo “os rivais ficam com os restos”. Só que a forma como o homem conduziu o blá-blá-blá deu à conversa mais um tom de agradecimento aos fãs do Playstation, como ele mesmo disse pouco depois: “Vamos começar prestando tributo aos gamers”.

Ele nem veio com aquele papo-furado sobre como o PS Vita vai massacrar o 3DS, típico da guerra PSP x DS dos anos anteriores. Foram uma ou duas frases exaltando o aparelhinho, e depois ele calou a boca sobre o assunto. Quem acompanha as notícias sabe que o Vita não está sendo exatamente um sucesso com o público, e a Sony parece ter adotado uma postura mais Microsoft para falar do portátil, destacando recursos multimídia e de convergência digital, e o uso do Vita junto ao Play3.

Kaz Hirai foi apresentado em seguida e saudado por aplausos efusivos. A Sony realmente começou com alto astral e com o pé direito.

O primeiro jogo anunciado foi Beyond, o novo trabalho de David Cage (do badalado Heavy Rain). O que acontece depois que você morre? É isso que o jogo quer responder (como se todo mundo já não soubesse: depois de morrer, você é enterrado ^_^), mostrando a vida de uma jovem chamado Judy Holmes ao longo de anos. A promessa é a de que, pela primeira vez, vamos acompanhar a vida de uma personagem. A atriz que interpreta Judy é Ellen Page, queridinha dos indies que ganhou o mundo no papel da protagonista do filme Juno. A moça tem muito talento e parece ter sido uma excelente escolha para o papel.

Ok, somos retrô, mas diz pra mim que o vídeo não é legal

Entrou o vídeo com gráficos realmente caprichados; incríveis as expressões faciais do policial. Os modelos do novo Call of Duty mostrados pela Microsoft mais cedo parecem uma brincadeira de mau gosto perto disso. Não costumo ficar fazendo muito fuzuê com os gráficos, mas o trabalho não só impressiona tecnicamente como tem uma direção excelente, onde tudo coopera em prol de um resultado caprichado. Fora que a cena mostrada me deixou super intrigado e curioso. Encarem isso como um “não vai sair para o Wii U, não tenho Play3 e torço para que toda a equipe morra num terrível acidente antes do jogo ficar pronto”. Muitos aplausos na saída do sujeito do palco, mostrando que o público comprou o lance todo do jogo.

Depois disso foi a vez de Playstation All Stars Battle Roayle, que nada mais é do que o Smash Bros da Sony, e um jogo de pancadaria com o Parappa me interessa instantaneamente. Subiram ao palco seis figuras, sendo que um era gordo, careca e bigodudo com cavanhaque (não tem como não destacar um cara desses, toda empresa deveria ter alguém gordo, careca e bigodudo com cavanhaque para usar nesses eventos). E quando o jogo começa a rolar… é TOTALMENTE Smash Bros, só que com um visual de gosto duvidoso (eu achei uma bosta) e, obviamente, com os heróis da Sony. Quem tiver um Vita pode jogar com seu amigo dono de PS3, os aparelhos “conversam”.

Sei que o conceito parece infalível, mas honestamente, o jogo não me pareceu ser dos melhores não. Acho que a Nintendo poderia processar esses caras facilmente — digo, depois que se livrar do processo que a Microsoft pode mover contra ela por plagiar descaradamente o controle do Xbox no Controller Pro do Wii U. No mundo dos games, nada se cria: todos se processam. Com esse jogo, a Sony caiu na arapuca que a Microsoft não caiu: a de tentar ser a Nintendo. A coisa chegou ao extremo dá empresa colocar a tag “Smash Bros” no vídeo do jogo no YouTube.

Aí veio um papo-furado chatinho pra caramba sobre a PSN e o Playstation Plus. Sabendo que o treco tava chato, o Tretton ofereceu logo um ano de graça no Playstation Plus a todos os presentes, aí todo mundo aplaudiu. Assim e fácil, hein, velho? Para a turma retrô, Tretton anunciou clássicos do PSX no Vita: Tomb Raider, Final Fantasy VII, Wild Arms, Arc the Lad e outros jogos. E tome papo chato sobre filmes e músicas no Play3, que saco… eu gostava tanto quando a E3 só falava de jogos. Anúncio de YouTube no Vita, grandes coisas.

Call of Duty Black Ops: Declassified é um novo título da franquia para PS Vita. FPS até em portátil, eu mereço uma praga dessas. Ao menos voltamos a falar de jogos, mas não rolou imagem ou vídeo algum.

Aí vem um breve vídeo do Assassins Creed III e o anúncio de um bundle do Vita com o jogo. O destaque do bundle é que o portátil terá um compartimento secreto com veneno de rato para seu filho brincar de envenenar os amigos do colégio. E a última frase é mentira, mas temos que animar as coisas por aqui, certo?

Quando entrou o gameplay a coisa ficou mais interessante: caravelas atirando umas nas outras e lutando contra as ondas em uma tempestade em alto-mar. Bem climático, mas sem perder a cara de videogame. Eu gosto desses caras da Ubisoft, de coração. Eles anunciam um bundle do jogo também para o PS3.

Far Cry 3 é apresentado, e rola um coop ao vivo com quatro jogadores (provavelmente era uma sequência gravada e a turma fingia que jogava na hora, obviamente). Logo no início acontecem umas coisa BEM esquisitas com umas sombras, mas o treco não deve estar pronto ainda, eu presumo. Mesmo não sendo fã de FPS, eu gostei bastante do cenário ensolarado na selva. Promessa de editor de mapas e campanha single-player bem trabalhada… se eu gostasse do gênero, estaria bem interessado. Na verdade, me interessei o suficiente para cogitar comprar o primeiro Far Cry no GOG.com. Presta ou não presta, senhores? Comentários, por gentileza.

Aí, vem um papo-furado horrendo sobre o Move. Sério, gente, esse treco presta? Todo jogo que eu vejo para o Move parece uma porcaria, uma tentativa da Sony ser a Nintendo.

Um sujeito sobe ao palco para tentar levantar esse presunto. Ele apresenta uma “experiência completamente nova”: é o jogo Wonderbook: Book of Spells, que usa um livro físico e tecnologia de realidade aumentada, tudo com assinatura da J.K. Rowling. O Move é usado como varinha mágica, gerando coisas que parecem sair do livro na tela. O jogador também interage usando as mãos sobre o livro para apagar chamas. Parece bobo, eu sei, e provavelmente só vai apelar mesmo às crianças fãs de Harry Potter, mas isso não significa que seja uma porcaria: eu achei bem feito pra caramba e bastante impressionante. Se eu tivesse um molecote em casa e tivesse um PS3, definitivamente compraria para ele.

Papo furado sobre o Playstation Suite, que agora é Playstation Mobile… chatice, chatice, chatice… desculpe se você estiver interessado e quiser mais detalhes, mas eu cochilei nessa hora. Acordei no vídeo de God of War: Ascension. É aquilo que vocês imaginam, sem alarmes e sem surpresas: quem gosta vai continuar gostando, quem não gosta vai continuar dizendo que odeia heróis carecas de cavanhaque. Eu devo estar ficando velho: quando o sangue começou a jorrar pra valer na briga com o homem-elefante, fiquei até com o estômago embrulhado, o que por tabela significa que a garotada de doze anos vai amar o jogo. Sai em março de 2013.

Nisso, vamos a um vídeo bolante de The Last of Us, da Naughty Dog. Gente, o treco tá TÃO bem-feito que eu tô quase ficando com inveja da turma que tem PS3. Kojima também ficou com inveja, e se essa tendência se manter logo logo um piano vai cair na cabeça do criador do jogo. Os gráficos estavam incríveis, e o jogo tinha uns lances tão cinematográficos que deu até medo do jogo inteiro ser uma longa sequência roteirizada. Se o jogador tiver liberdade para passar de cada fase do jeito que achar melhor, vai fazer um sucesso grande pra diabo.

O jogo encerrou a conferência em grande estilo. Como eu imaginei, em vez de ficar falando em hardware e convergência digital, a Sony caiu pesado mesmo nos jogos. Eu não me empolgo muito porque sou put$%#@ da Nintendo e ultimamente só tenho vontade de jogar as coisas que a empresa faz, mas para quem curte um Play3 a conferência da Sony foi sinal de um ano cheio de diversão pela frente. Parabéns pros caras.

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About Orakio Rob, "O Gagá"

Dono do império corporativo Gagá Games, o velho Gagá adora falar sobre si mesmo em terceira pessoa. E sim, é ele mesmo que está escrevendo este texto.