Defenders of Oasis: o coração da Pérsia no Game Gear

Fato inédito no Gagá Games: eu falando sobre um jogo de Game Gear. Podem procurar nos arquivos, eu nunca fiz um post sobre um jogo do portátil. Ao menos não que eu me lembre. Pombas, este blog já é velho pra caramba, hein?

Primeiro, nunca tive um Game Gear. Segundo, acho que não tem a menor graça jogar jogos de portáteis em emuladores no computador. Não tem nada a ver aquela telona imensa na sua cara exibindo um jogo pequetitinho, feito para você jogar com o nariz quase encostando no visor de cristal líquido (invariavelmente horroroso e fedorento) de um portátil “noventista”.

Porém, um dia um amigo fez a imensa caridade de me dar um Nintendo DS de presente. Gostei tanto que pulei para um 3DS XL, e além de blasfemar furiosamente contra o retrogaming jogando modernices sujas, impuras e obscenas nele, eu também tenho meus momentos limpos, perfumados e católicos com jogos retrô no bichinho.

O Virtual Console do 3DS é particularmente interessante para mim, porque pela primeira vez eu me sinto realmente empolgado em jogar títulos velhos de portáteis. Afinal, o 3DS tem o tamanho apropriado, permite jogar na resolução original e até coloca umas bordinhas em volta para você se iludir que está jogando num Game Gear mesmo, vejam só:

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Igualzinho ao original, a única diferença é que no 3DS dá para enxergar o jogo

 

Enfim, o Adinan já fez um ótimo post sobre o Game Gear no Virtual Console do 3DS, os interessados podem (e devem) conferir.

Disposto a garimpar pérolas desconhecidas desse imenso paraíso de diminutos prazeres, dirigi-me ao eshop com um objetivo muito específico: encontrar um RPG de Game Gear feito pela Sega. Enquanto via as ofertas, tropecei num Shining Force e vejam só, caí de cara no Defenders of Oasis. Quando me recuperei do choque, ergui a cabeça do chão, pousei o olhar sobre o meu 3DS e lancei a mim mesmo a pergunta: que RPG é esse?

*fim do momento poético* :P

Joguinho das Arábias

Quando você era moleque, não era bacana quando abria a merendeira no colégio crente que ia achar aquele sanduíche de queijo prato burocrático da sua mãe… e aí topava com um suculento sanduíche de mortadela? *adoro mortadela*

Pois foi assim que eu me senti com o Defenders of Oasis (1992). Peguei o jogo só pela curiosidade, e no fim das contas fiquei completamente apaixonado por ele. Aliás, foi no início das contas, porque a abertura já chega logo chutando a porta e mostrando a que veio.

Honestamente, eu não esperava que um joguinho de Game Gear pudesse me impressionar tanto com cenas desenhadas. A arte é caprichada e inteligente, envolvendo o jogador no clima da trama e fazendo você se sentir lá dentro mesmo. Quer ver um exemplo? Saca só:

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Visitar em tempo real a ceninha que você viu em “CG” na abertura: não tem preço

A história segue o estilo “demônio ancestral aprisionado quer voltar a atormentar o mundo”, mas vai buscar “sustância” na rica mitologia do Oriente Médio. Em termos práticos, o que aparece mesmo no jogo é uma trama típica de jogos do gênero, mas o que conquista é o nível de detalhamento e as cores com que a história é apresentada. Tipo, existe o feijão com arroz quentinho e saboroso da sua avó e o feijão com arroz da pensão do Janjão, certo? Pois é, Defenders of Oasis é o JRPG da vovó.

Pode parecer que estamos falando de um JRPG bastante tradicional aqui (progresso linear, batalhas por turnos), mas Defenders of Oasis está cheio de boas ideias. Para começar, a ambientação estilo mil e uma noites já separa o jogo de 99% da produção de RPGs da época (dominada por cenários de fantasia medieval).

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Ondas se chocando contra o litoral, gaivotas voando ao redor do navio… os gráficos são um estouro

Mas o clima das Arábias não é usado de maneira artificial não, baixou mesmo o espírito da Xerazade na SEGA. Entre gênios, turbantes e referências a Ali Babá, você vai atravessar desertos ensolarados e enfrentar sandworms (ou “minhocões de areia” para os não iniciados) ao som de excelentes melodias que têm tudo a ver com a ambientação. Some a isso o fato de que os cenários são muito bem desenhados, com direito a ondas se chocando no litoral “Phantasy Star style” e o resultado é um jogo muito bem planejado e produzido.

Épico, com versos e tudo

Olha o Zahak aí geeeeente! Cruzes!!!

Olha o Zahhark aí geeeeente! Cruzes!!!

Falar sobre as Mil e Uma Noites e todas essas histórias “das Arábias” é complicado, porque a gênese dessas histórias é multicultural e envolve várias nações do Oriente Médio, e não só a Arábia. Portanto, não vou me estender no assunto, até porque não tenho cacife para isso. Porém, vale a pena falarmos um pouquinho sobre uma parte específica dessa cultura, que tem tudo a ver com o nosso joguinho.

A trama e muitos dos personagens de Defenders of Oasis são diretamente inspirados no poema épico iraniano “Shahnameh”, ou “Livro dos Reis”. Colando diretamente da Wikipédia, trata-se de:

“(…) uma grande obra poética escrita no século X, pelo escritor iraniano Ferdusi, que narra a história e a mitologia do Irã, desde a criação do mundo até a sua conquista pelos árabes no século VII. Sua elaboração levou cerca de 30 anos e o livro se constitui de 62 histórias (990 capítulos) e 56.700 dísticos (estrofes de dois versos).”

990 capítulos? Uau, senhores.

A grafia dos nomes persas é uma zorra de traduzir, então perdoem ligeiras variações. O Rei Serpente Zahhark que vemos no jogo, por exemplo, é na verdade Zahhak (ou Dahaka, não confundir com o monstrengo de Prince of Persia: Warrior Within, que é outra criatura dessa mesma mitologia). No poema, ele é beijado nos ombros por Ahriman (que é o grande vilão de Defenders of Oasis), e em seguida duas cobras negras nascem em seus ombros! Pior que nem adianta cortar fora, porque nascem outras no lugar!

Enfim, é história que não acaba mais. Se alguém aí encarar os 990 capítulos desse poemão, favor informar o endereço para que eu envie uma medalha de bronze e dois potes de Danoninho pelo correio.

Os personagens também surpreendem. Numa época em que os personagens de RPGs eram muitas vezes estereótipos genéricos, a SEGA colocou o jogador no controle de um príncipe preguiçoso, encostadão, que não está nem aí para compromisso. Após a invasão de seu castelo, porém, o moço se vê obrigado a agir, resgatando do calabouço do castelo uma lendária lâmpada mágica.

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O gênio é um tremendo bad-ass!

O gênio é um tremendo bad-ass!

O Gênio é o primeiro herói a unir-se ao príncipe, e ele já tem uma característica especialíssima: é o único personagem do jogo capaz de usar magias. Além disso, ao contrário dos outros heróis, o gênio não avança de nível! Para que ele fique mais forte, você tem que encontrar acessórios para a lâmpada; para que aprenda magias, só encontrando as inscrições sagradas nas paredes dos labirintos. How cool is that? E a ambientação não faz concessões, porque as magias têm nomes como Afnawar, Halwtart e Wofmanaf! *é um inferno decorar o que elas fazem mas tudo bem, rs*

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Em cima: a trama é bem movimentada. Embaixo: as inscrições sagradas ensinam magias ao gênio

Os outros personagens também têm características únicas. Saleem pode usar sua dança para atacar todos os inimigos da tela, enquanto o ladrão Agmar pode se esconder por um turno e atacar com mais força no turno seguinte. Parece inútil, até você começar a topar com inimigos que pulam para fora da tela e caem com tudo em cima de um dos heróis no turno seguinte. Se ele pular em cima do Agmar, vai perder o turno e levar uma paulada mais forte do nosso herói no turno seguinte.

Japas das arábias

É difícil levantar os nomes dos desenvolvedores de jogos dessa época, porque muitos deles apareciam nos créditos com nomes falsos. Porém, deu para resgatar alguns nomes relevantes do time de desenvolvedores de Defenders of Oasis.

Para começo de conversa, temos Masayuki Ishikawa. Ele é creditado como “Scenario Adviser”, então eu presumo que tenha sido o responsável pela ambientação do jogo, pela pesquisa das lendas etc. Seu currículo não é muito extenso, mas ele foi roteirista de Shin Megami Tensei Nine, que também é uma série entupida de referências a deuses orientais.

Uma das artistas gráficas do jogo é Takako Kawaguchi, vulgo “Myau Choko”. Se o nome soou familiar, é porque ela trabalhou ao lado de Koki Sadamori e da lenda-viva Naoto Oshima (o “verdadeiro” criador do Sonic e do Dr. Robotnik) nos gráficos do primeiro Phantasy Star. Trabalhou também na série “Illusion” (Castle of Illusion e afins) e em vários outros jogos bacanas. Coisa fina.

Quer mais Phantasy Star nessa mistura? Outro artista de Defenders of Oasis, Gen Adachi, trabalhou ao lado da também lendária Rieko Kodama nos gráficos do clássico Phantasy Star II. E se bobear tem mais gente em comum entre esses dois jogos, mas esses aí vão ter que servir, porque rastrear esse nomes e apelidos de desenvolvedores japoneses é um terror :P

 

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Os heróis são uns piadistas… 

Só pelas habilidades de cada personagem, o combate de Defenders of Oasis já seria movimentado e interessante, mas a coisa não para por aí. Como acontece em muitos RPGs, seus personagens podem ser envenenados pelos inimigos. Porém, o efeito é diferente de outros RPGs: em vez de perder energia a cada turno, você apenas é avisado de que foi envenenado e a batalha segue normalmente. Maaaaaas… passados alguns turnos, o jogo avisa que o veneno está ganhando força. Se você não curar o herói envenenado ou não der um fim ao combate naquele mesmo turno, o sujeito morre na hora.

E os itens que você pode usar em batalha? Para curar veneno, é “Snake Act” (traduzindo, seria tipo uma dança com cobras). Para ressuscitar um herói, é “Worm Act” (sim, minhocas para ressuscitar um morto, humor negro total). E o que dizer do inusitado barril? Você imaginou que algum dia veria um RPG no qual, em pleno combate, todos os heróis pulam dentro de um barril de água, relaxam e restauram um pouco de HP? É sério, o próprio jogo descreve a cena!

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Na segunda foto, o gênio usa magia para bloquear o ataque especial do vilão

A variedade de itens é grande, e o mistério que envolve alguns deles vai além do nome. Vejam o caso do talismã, cujo efeito varia conforme o estado do seu grupo: se houver heróis mortos em combate, eles serão revividos. Todos vivos, mas perderam energia? Todos serão restaurados. E se estiverem todos vivos e com HP cheio? Aí o seu inimigo perde METADE da energia! E vale até para o último chefe O_O

E o travesseiro? Eu achei esse “equipamento” perto do final do jogo. Equipei, e aí percebi que meu personagem não estava atacando, porque… ele estava dormindo no combate! Pelo menos o descanso rendia recuperação de HP no fim da briga, rs… e olha que eu nem falei ainda da possibilidade de combinar itens para criar espadas especiais. É ou não é um negócio incrível para um RPG de Game Gear?

Defenders rende umas boas 20 horas de jogatina. O jogo é bem linear, então você vai basicamente seguir do ponto A para o ponto B, embora mais tarde o gênio aprenda a magia de transporte, permitindo que você volte a locais já visitados. Mas a graça do mundo de Defenders of Oasis não está em sua extensão, mas sim em sua profundidade: os personagens, os locais, as lendas, as músicas, as criaturas, a atenção aos detalhes… os últimos inimigos do jogo até gritam o nome do líder dos demônios quando são derrotados. Não dá para avacalhar um jogo desse naipe, senhores, simplesmente não dá. Bons tempos, hein, SEGA?

Quer mais? Então confira o post do Adinan sobre Defender of Oasis no QG Master!

Bônus: confiram aí a matéria de uma revista da época, afanei da seção de scans do SMSPower:

SegaForce-Magazine-Issue15-76SegaForce-Magazine-Issue15-77

Cliquem nas imagens para ver em tamanho grande!

About Orakio Rob, "O Gagá"

Dono do império corporativo Gagá Games, o velho Gagá adora falar sobre si mesmo em terceira pessoa. E sim, é ele mesmo que está escrevendo este texto.