metroid_boxDesde que joguei Super Metroid (SNES) eu digo que sou fã dessa franquia clássica da Nintendo, mas a verdade é que até pouco tempo eu não conhecia quase nada do resto da série. Disposto a preencher essa lacuna, há algumas semanas eu comprei um Wii com a trilogia Metroid Prime, e aproveitei o embalo para adquirir e finalmente terminar o Metroid original de NES no Virtual Console.

Metroid foi lançado para o Famicom Disk System (o drive de disquetes do Famicom) no dia 6 de agosto de 1986. Trata-se de um jogo de ação, no qual o jogador controla a caçadora de recompensas espacial Samus Aran. Sua missão: invadir o planeta Zebes, base de operações de um grupo alienígena , e impedir que usem a letal raça dos Metroids como arma para dominar a galáxia.

O que é realmente impressionante em Metroid é que, mesmo mantendo praticamente a mesma jogabilidade do original, os novos títulos da série continuam proporcionando uma experiência que soa tão moderna quanto a de vinte anos atrás.

A série é cria um japonês chamado Yoshio Sakamoto. Ele está envolvido com Metroid até hoje, quando a Nintendo trabalha em parceria com o Team Ninja no próximo jogo da série para o Nintendo Wii, Metroid: Other M. Embora a maioria dos jogadores provavelmente estabeleça uma ligação entre o jogo e a série de filmes Alien, Sakamoto diz que sua maior influência vem dos filmes de terror de Dario Argento. Filmes como “Prelúdio para matar” deram à ficção-científica de Metroid o toque de horror que torna a série tão atraente e atmosférica até hoje.

Assim como o primeiro Zelda, lançado meses antes, Metroid também tinha uma proposta diferentona para a época: em vez de seguir um caminho linear, com a tela rolando automaticamente em um sentido único, na primeira tela o jogador já tem que escolher para qual lado seguir. Pegando emprestado um truque de The Legend of Zelda, logo ao lado do ponto de partida há um item que ajudará o jogador a atingir novas áreas, a Morph Ball. É um jeito de dizer: “vai, meu filho, é assim que se faz em Metroid, encontre os equipamentos especiais”.

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Destaque para os rostos sinistros esculpidos em pedra, logo na primeira tela

Embora seja um jogo bastante cerebral, onde você deve prestar atenção a todos os detalhes para encontrar passagens secretas e possíveis rotas que possam ser alcançadas mais tarde (com o equipamento adequado), a ação em Metroid é pedreira pura. Você até pode parar de vez em quando e dar uma respiradinha ali, do lado da porta de uma nova tela. Mas quando você se enfia por um daqueles corredores bem longos, meu camarada, é um tal de inimigo quicando pelo teto, aberturas no solo cuspindo inimigos que voam em alta velocidade na sua direção, e quem sabe até um chãozinho coberto de lava para tornar as coisas mais divertidas…

Encontrar o tiro congelante, o super salto e outros itens é vital para que o jogador atinja novas áreas no jogo. Várias vezes você vai ter aquela sensação de “ah, peguei o super salto, agora vou poder alcançar aquela porta lá no alto que vi há algumas horas”. Só que Zebes é um planeta bem grandinho, e você vai precisar de ótima memória para voltar até “aquela porta lá no alto”. É aqui que um gamer como eu, que se iniciou na série com Super Metroid, vai notar a maior ausência do jogo: o mapa.

Eu já não passei por aqui antes?

metroid-mapaPois é, o Metroid original não tem aquele mapinha maroto da versão do Super Nintendo, que vai sendo desenhado conforme você avança. E o pior de tudo é que há muitas áreas parecidas, e por vezes você vai ter a impressão de estar literalmente andando em círculos. Felizmente, o planeta Zebes é dividido em setores, acessados por meio de elevadores, e cada setor tem elementos gráficos diferentes, o que facilita (só um pouquinho…) a sua hercúlea tarefa de se localizar nesse enorme conjunto de túneis de acesso e passagens secretas.

A ação em Metroid se passa no subterrâneo, então o mapa de Zebes é uma espécie de fosso de duas colunas (mapa à direita, por Joe Milik). O lado esquerdo é composto predominantemente pelo esconderijo de Kraid (em roxo) e pela região de Tourian (em vermelho), e o lado direito pelo esconderijo de Ridley (azul claro) e pela região de Norfair (verde). A área inicial, Brinstar (em azul escuro), funciona mais como uma passagem para três setores diferentes: ela nasce em um estreito corredor que divide Tourian e o esconderijo de Ridley, e sobe em linha reta em um longo fosso que tanto oferece acesso à região final de Tourian à esquerda como também atravessa para o lado direito do mapa, dando entrada para Norfair. Acredite: é muito mais fácil se localizar no jogo tendo isso em mente, e um mapinha in-game de preenchimento automático não atrapalharia em nada o clima do jogo e seria muito bem-vindo.

Os esconderijos de Kraid e Ridley são guardados pelos respectivos monstros. As telas de acesso a essas áreas já exibem imagens um tanto assustadoras para avisá-lo de que aquele pedaço “tem dono”. É claro que só o fato de estar em um planeta alienígena já é algo inquietante, mas ver as imagens de uma criatura de expressão hostil esculpida em rocha segundos antes de descer por um elevador pode não ser algo muito tranquilizante. Taí a tal influência dos filmes de terror do Dario Argento.

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Eu não descia por esse elevador nem que me pagassem

Aliás, nota-se que relaxar é a última coisa que Sakamoto queria que seus jogadores fizessem. Samus está completamente sozinha, e mantém silêncio absoluto do início ao fim do jogo. A enorme sensação de opressão que o jogador tem ao descer cada vez mais por uma região labiríntica e desconhecida é complementada pela trilha sonora. Não dá para não elogiar o excelente trabalho realizado com a música.

Ouça um dos temas de Metroid, composto por Hirokazu Tanaka

Os temas são bem compostos, envolventes e muito perturbadores. Apesar das limitações técnicas do NES, que era mais propício a temas melodiosos ou empolgantes do que atmosféricos, Metroid segue o caminho mais difícil e apresenta músicas tensas e arrepiantes, muito mais comuns nos jogos contemporâneos do que nos daquele tempo.

Um toque feminino

Sakamoto já disse em entrevistas que valoriza bastante o medo, que está sempre buscando novas maneiras de provocá-lo nas pessoas. Por isso é bastante curioso que ele tenha guardado para o final do jogo a revelação de que Samus é, na verdade, uma mulher (como a personagem está completamente coberta pela armadura, o jogador só descobre isso no final do jogo). Sem querer ser machista por aqui, mas ainda mais assustador do que conduzir um herói solitário por um ambiente cheio de pequenos horrores é fazer o mesmo conduzindo uma heroína solitária — se além de mulher ela fosse uma criança, então a coisa toda seria ainda mais assustadora, como os espertos designers de Silent Hill 3 fizeram questão de nos mostrar.

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Acredite em mim: se você cair nessa lava aí, vai dar um trabalho subir de novo…

Uma protagonista feminina aumenta a sensação de vulnerabilidade do jogador. No ano seguinte, a SEGA usaria uma protagonista feminina em Phantasy Star, e como sou meio “seguista”, sempre brinco dizendo que a Nintendo teve medo de apresentar logo de cara ao público predominantemente masculino do jogo a protagonista feminina, e tapeou todo mundo revelando o fato apenas no final do jogo, enquanto a SEGA teve peito de fazer a coisa bem às claras desde o início. E se você levar esse parágrafo a sério e quiser começar a defender a Nintendo, é porque não tem nenhum senso de humor 🙂

No fim das contas, o segredo do jogo conta a favor da protagonista, já que o jogador passa por toda a aventura imaginando estar no controle do típico herói masculino. Na hora da revelação, a gente se dá conta de que o fato da protagonista ser uma mulher não afetou de forma alguma a jogabilidade e o clima da aventura, o que também é uma maneira bastante inteligente de se desmoralizar o machismo vigente nos games até os dias de hoje.

Conclusão

Se você tirar da equação a parte técnica, vai notar que Metroid é um jogo que envelheceu admiravelmente bem. O elemento de exploração do cenário, a busca por equipamentos que aumentam as capacidades da protagonista e a atmosfera com intenção claramente cinematográfica não ficam nem um pouco deslocadas entre os jogos contemporâneos. Isso mostra o quanto Metroid estava à frente de seu tempo. O clássico Super Metroid, figurinha fácil em diversas listas de maiores jogos de todos os tempos, basicamente manteve os mesmos conceitos, apenas aprimorando-os (da mesma forma que A Link to the Past só precisou expandir os conceitos do Legend of Zelda original para ser um grande jogo).

Mesmo em suas incursões tridimensionais, que chegaram ao GameCube e ao Wii na trilogia Metroid Prime, a base da jogabilidade é a mesma: um cenário labiríntico dividido em setores, equipamentos que dão acesso a novas áreas, passagens secretas, chefes, medo, suspense e muitos saltos em plataformas. E pelo que os trailers do novo Metroid: Other M indicam, a fórmula está longe de ultrapassada.

Metroid está à venda no Virtual Console do Wii por 500 WiiPoints (perto de dez reais). O jogo também foi relançado para o Game Boy Advance, como parte da série “Classic NES”. Se os gráficos datados forem um empecilho para você, experimente o remake turbinado Metroid Zero Mission, para o Game Boy Advance.

Metroid (NES): 24 anos, com corpinho de 16
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20 ideias sobre “Metroid (NES): 24 anos, com corpinho de 16

  • 23/06/2010 em 8:38 am
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    hahaha “muito bom cara, muito bom!” eu me senti exatamente como vc quando joguei esse metroid a primeira vez… (Deus salve a feirinha de vilar dos teles, lá que eu consegui minha “metroid de dynavision..rs) eu tenho um primo que certa vez ganhou um snes e adivinhem qual jogo que veio junto? não não foi super mario world como a maioria, foi super metroid! claro foi amor a primeira vista… demoramos literalmente anos pra zera-lo (bom na epoca pareceu bastante tempo…rs),sempre acontecia algo com nosso save (assim como ainda acontece hoje com metroid fusion)… metroid é de fato uma das melhores coisas que a nintendo já fez (senão a melhor!) e super metroid é o melhor da serie… vinda longa a samus!

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  • 23/06/2010 em 10:26 am
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    “Uma protagonista feminina aumenta a sensação de vulnerabilidade do jogador. No ano seguinte, a SEGA usaria uma protagonista feminina em Phantasy Star, e como sou meio “seguista”, sempre brinco dizendo que a Nintendo teve medo de apresentar logo de cara ao público predominantemente masculino do jogo a protagonista feminina, e tapeou todo mundo revelando o fato apenas no final do jogo, enquanto a SEGA teve peito de fazer a coisa bem às claras desde o início. E se você levar esse parágrafo a sério e quiser começar a defender a Nintendo, é porque não tem nenhum senso de humor.”

    Gagá, seu Seguista de mer…

    Brincadeira!!! =D

    Bom, quem já me conhece (seja pessoalmente ou pela blogosfera retrogamer) sabe o quanto eu venero essa série.

    E é bem isso o que o Orakio falou: mesmo 24 anos depois de seu lançamento, Metroid consegue se manter bem atual, com vários conceitos a frente do seu tempo. A trilha sonora é um achado, não me canso de escutá-la.

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  • 23/06/2010 em 2:56 pm
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    Tive meio ausente aqui… e retorno com essa bela matéria!!!

    Assim como o Gagá, comecei com o Super Metroid (um dos melhores jogos da galáxia)… e anos depois emulando no meu dreamcast, encarei o desafio de terminar esse clássico!

    O Jogo eh simplesmente fantástico, e faz a dificuldade do Super Metroid ser coisa de criança!!! Um tirinho de 30 cm de alcance e um pulinho mixuruca para começar??? MEDOOOOOO!!!! heuheue…

    Mas não tive dificuldade em me localizar em Zebes, visto que a Nintendo fez um trabalho fantástico em recriar Zebes no “Super Metroid”.

    Sem falar que Metroid Zero Mission eh um dos melhores Remakes feitos pra um old game: mantém o ambiente obscuro e a história original, trazendo pro ambiente da série Prime (que ocorre meses depois do primeiro incidente em Zebes).

    O melhor eh zerar o game em um tempo rápido, pra poder controlar a Samus soh de tanguinha!!!! ^^

    Mas que a Nintendo ficou com medo de apresentar uma mulher logo de cara… ahhhhh… isso eh verdade!!!! hehe…

    Querem uma boa dica??? Terminem Metroid, e joguem logo em seguida Metroid 2: the return of Samus, pois eh um jogaço!!!! Pra mim, pau a pau com Super Metroid! ^^

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  • 23/06/2010 em 3:10 pm
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    Sou fã da serie porem nunca zerei o original, tsc tsc, tenho vergonha de mim mesmo. Mas nunca é tarde pra se redimir, então depois que zerar o primeiro Dragon Quest vou pra Metroid.

    Porem já zerei esse game no remake Zero Mission, jogão, e o bom que tem uma parte inedita no final.

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  • 25/06/2010 em 7:30 am
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    Tentam me convencer do contrário mas metroid (principalmente o super) é a melhor série videoguaimística… Vou tentar jogar zerar o 1°… mas pelo pouco que joguei percebi o quanto hardcore deveria ser o jogador “das antiga” para poder ver o final do jogos. Parabéns Gagá… maravilhosa reportagem.

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  • 25/06/2010 em 11:14 pm
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    Ah, mas quando você diz que a Nintendo não teve peito pra mostrar logo de cara foi sacanagem pô, pior a sega que…. brincadeira, rsrs. A matéria tá ótima e retratou muito bem o que é a sensação de jogar Metroid.

    Eu que sou pecador mas sou honesto confesso que nunca joguei o primeirão, apenas o Super Metroid (umas quinze vezes). Estou pra me redimir desse pecado e acho que sua matéria acabou de dar o empurrão que faltava.

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  • 27/06/2010 em 2:34 pm
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    Comecei a jogar Metroid pelo Fusion de GBA e depois de ler esse texto confirmei minhas suspeitas de que o clima da série foi mantido com perfeição. Com essa mapa eu encaro a versão clássica numa boa. Não é covardia, é falta de tempo. Adorei a análise! Parabéns Mestre!

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  • 27/06/2010 em 9:47 pm
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    @GLStoque
    Eu zerei o Fusion também, é muito bacana. A única diferença é que no Fusion a coisa é mais linear, o cara vai te dizendo o que fazer, enquanto nos outros Metroids você é jogado no lugar com um bilhetinho de “vai lá, minha filha, te vira!”

    No mais, é o mesmo Metroid de sempre, divertido, tenso e viciante. Se você está a fim de jogar algum, não posso deixar de recomendar o Super Metroid que é um espetáculo de jogo. O primeirão de NES é ótimo, mas o de Super NES é sacanagem, não tem comparação com nada neste planeta.

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  • 17/09/2010 em 1:05 pm
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    METROID É UMA DAS MAIORES FRANQUIAS DE SUCESSO DA NINTENDO, DEPOIS DE MARIO, É CLARO. TODOS SE SURPREENDERAM AO SABER QUE NO FINAL DO PRIMEIRO METROID, SAMUS REVELARA-SE COMO MULHER, COM CABELOS VERDES, O QUE ERA SEM GRAÇA E PRA MIM ISSO SOOU COMO GOZAÇÃO, SÓ MUITO TEMPO DEPOIS ELES A REFIZERAM COM CABELO DOURADO. A SAGA METROID PRIME MARCOU O COMEÇO DAS AVENTURAS 3D DE NOSSA HEROÍNA, PORÉM, AS AVENTURAS 3D NÃO CHEGAM NEM PERTO DAS ANTIGAS 2D. TALVEZ A SAGA METROID PRIME TENHA SIDO CRIADA EM RESPOSTA AO MARIO 64.

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  • 26/09/2012 em 8:23 pm
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    Caramba… 1986. Eu tinha 7 anos, e o atari que reinava por aqui em 1986. Imagina eu naquele ano com este Metroid, acho que nem iria pra escola! Metroid foi extremamente avançado para a época, estava além de seu tempo realmente. Pena que só fui conhecer uns 7 anos depois…

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