Dragon Quest (NES): era uma vez uma princesa…

Como bom amante dos RPGs, eu sempre achei que não poderia morrer sem zerar pelo menos um Dragon Quest. Afinal de contas, DQ talvez seja a série de RPGs mais importante da história dos consoles de videogame, e um sujeito sério não pode se dizer um profundo conhecedor da história dos RPGs sem ter jogado ao menos por umas boas horas o jogo que deu início à febre desse gênero nos videogames japoneses, e que naquelas longínquas terras orientais consegue ser ainda mais popular do que a badalada série Final Fantasy.

Você já deve estar careca de saber disso, mas no ocidente o jogo se chama "Dragon Warrior".

Você já deve estar careca de saber disso, mas no ocidente o jogo se chama “Dragon Warrior”.

Eu já tinha feito algumas tentativas fracassadas de zerar um Dragon Quest. A primeira foi com o Dragon Quest VII de Playstation. Passei uns poucos dias jogando, mas estava achando o ritmo um tanto lento, e a trama parecia simples demais para o meu gosto. Não estava levando jeito que uma história épica ia sair dali, e eu definitivamente estava esperando algo na linha de um Final Fantasy. Pensei que talvez a série já estivesse perdendo o gás, então fiz uma pesquisa e descobri que o Dragon Quest favorito do criador da série, Yuji Hori, supostamente era o quinto episódio. E lá fui eu com Dragon Quest V: Hand of the Heavenly Bride, de Super Nintendo. Nhé. Não curti. Aconteceu a mesma coisa: achei paradão, achei que a história era meio bobinha e larguei nas primeiras horas de jogo.

Mas claro, eu sou brasileiro e não desisto nunca: por ocasião da minha “Cruzada NES” aqui no blog, meu pecado se tornou duplo: além de ficar feio ser um amante de RPG que nunca tinha zerado um Dragon Quest, eu agora ia me tornar um pseudo-conhecedor do NES que nunca tinha zerado um Dragon Quest. Não, eu tinha que resolver essa pendenga. Decidi encarar o primeiro Dragon Quest, o jogo que começou tudo. Aliás, para ser mais exato, eu decidi me forçar a terminar o jogo, por mais que eu o odiasse. Para mim, essa jogatina ia ser um fardo, mas eu tinha que acabar logo com isso.

E hoje estou aqui, assumindo publicamente que eu sou um imbecil. Dragon Quest é um jogo absolutamente maravilhoso.

Cuma? Maravilhoso? Tá brincando?

Ok, eu sei, DQI tem lá os seus problemas. Se você fica um segundo parado, o menu de status pipoca na tela automaticamente, o que atrapalha muito as suas caminhadas. Para falar com alguém, é preciso abrir o menu de ações e escolher “Talk”. Mas vamos ser justos: eu já vi muita gente reclamando desse lance de ter que abrir menu para falar com alguém ou até para abrir portas e baús. Eu acho que isso está longe de ser um problema aqui. A opção “talk” é a primeira do menu, então para falar com alguém é só apertar o botão duas vezes. Além disso, você quase não vai abrir portas e baús no jogo, não achei nem um pouco incômodo ter que ir até o menu nas esparsas ocasiões em que tive que fazer isso.

Obviamente, o sistema de jogo é bem simples (estamos falando de um jogo lançado em 1986, antes mesmo do primeiro Final Fantasy): não dá para vender itens quando você quer. Na hora em que você compra uma arma nova, o vendedor se oferece para comprar a antiga. Não dá para levar mais de uma.  Não há um grupo de aventureiros, aqui temos um herói solitário e de poucas palavras. Esteja você numa floresta ou num deserto, o cenário de batalha é sempre o mesmo. Os gráficos são o que você esperaria de um jogo lançado em 1986, mas o design dos monstros é simpático, cortesia de Akira Toryama, da série “Dragon Ball”. A música também não foge à regra da simplicidade, mas vale destacar que os temas são muito bem compostos. O compositor da trilha, Koichi Sugiyama, é um nome muito badalado até hoje.

dqi-esqueleto

Se você não gosta de ficar matando monstros para avançar níveis, vai odiar DQ. A lógica do jogo é a seguinte: você começa em um castelo, vizinho a uma cidade onde pode restaurar sua energia. Os monstros da região estão mais ou menos no seu nível, e você pode matar alguns e ganhar experiência por ali sem muitas dificuldades. Mas se você se afastar demais da cidade, geralmente atravessando uma ponte, vai encontrar inimigos muito mais fortes e provavelmente vai dançar em poucos segundos. Isso significa que você vai seguir o esquema cidade nova > matar muitos monstros da região para comprar armas e avançar níveis > seguir para a próxima cidade. E avançar níveis e conseguir o dinheiro para certos equipamentos pode demorar muito. Agora eu entendo por que os jogos dessa série são famosos por serem longos: você vai batalhar centenas de vezes seguidas só para chegar a um nível que lhe permita alcançar a próxima cidade. Mas para ser honesto, a simplicidade dos combates e do uso de magias até que agrada.

Sem surpresas na trama: princesa sequestrada por vilão cruel, descendente de grande guerreiro do passado deve recuperar item sagrado e derrotar vilão cruel. Nesse sentido, o que eu pensava sobre Dragon Quest se mostrou verdadeiro: a trama é extremamente simples, e não há reviravoltas mirabolantes ou surpresas no enredo, exceto por uma curiosa possibilidade de “bad ending” quando você encontra o último chefe. Mas a verdadeira surpresa, e o maior trunfo do jogo, está em uma de suas personagens: a princesa Gwaelin.

Pelo amor de uma princesa…

A série DQ é considerada bastante tradicional, e não é o primeiro nome que vem à mente quando pensamos em inovações no gênero dos RPGs. Mas este primeiro jogo tem uma sacada absolutamente genial, que pega o jogador de calças curtas. A qualquer momento do jogo, você pode levar seu guerreiro até uma pequena caverna que fica a poucos passos do castelo onde o jogo começa, enfrentar um dragão e salvar a princesa. Claro, você precisa ganhar alguns níveis para fazer isso, e pode deixar para o final se preferir (ou até mesmo pode deixar a princesa lá mofando para sempre), mas eu consegui resgatar a princesa mais ou menos no meio da minha jogatina, sem grandes dificuldades.

Aí vem a grande cena do jogo. Quando eu encontrei a princesa naquela caverna, fiquei surpreso. Eu esperava encontrar um item por ali, e não a princesa, tão precocemente. Mais surpreso ainda eu fiquei quando a princesa disse estar muito feliz por ter sido salva, e o pequeno sprite do meu guerreiro tomou a princesa nos braços, a música mudou para um tema cheio de ternura e o jogo me devolveu o controle do personagem. Eu literalmente carreguei a princesa nos braços até chegar ao castelo do Rei Lorik.

dqi-salvando_a_princesa

Aquilo não foi inusitado apenas no aspecto técnico, pois nessa época a memória disponível para os jogos era pequena, e você não espera que os programadores “desperdicem” sprites para retratar o herói carregando a princesa. Aquilo foi inesperado porque o jogo todo vinha se mostrando tão simples e frio, e subitamente aquela cena encheu o jogo de calor. Ali você entendia o propósito da sua missão, ali você assumia o compromisso de ajudar o herói a derrotar o lorde do mal, não em nome dos NPCs que não significavam nada para você, mas em nome da princesa pela qual você havia se apaixonado. De fato, não há nada de inovador em enfrentar um senhor do mal em nome do amor de uma princesa, mas a forma como o jogo apresenta isso tudo é singela e genial.

Eu levei a princesa de volta ao castelo, sob efusivos agradecimentos do rei. Ela fica ao lado do pai até o fim do jogo, mas não sem antes dizer: “Aceite meu amor, herói. Mesmo separados por grandes distâncias, eu estarei com você”. E então você recebe o item “Gwaelin’s Love”, que indica a que distância você está do castelo e do coração de Gwaelin. O item também indica a localização no mapa de um item necessário para a conclusão do jogo.

A partir do resgate da princesa, o jogo ganhou alma nova. Nada havia mudado na interface, mas eu estava mudado. Agora eu estava realmente disposto a levar a aventura até o fim. Zerar Dragon Quest deixou de ser um fardo, e virou uma missão que eu cumpriria com muito prazer. Não vou estragar a surpresa do fim do jogo, mas a princesa volta a roubar a cena no encerramento.

Conclusão

Se eu estava errado em relação a Dragon Quest? Sim e não. De fato, o sistema de jogo é primitivo, os personagens de um modo geral não são muito interessantes, o sistema de jogo é extremamente simples e a trama nem se compara ao que você encontraria em qualquer Final Fantasy. Mas eu estava errado por não ter percebido como a extrema simplicidade do jogo atua em seu favor. Eu estava errado em esperar de DQ o mesmo que eu esperava de um FF. Em um jogo como Final Fantasy, uma cena singela como a do resgate da princesa jamais poderia brilhar e envolver o jogador da mesma forma que em um jogo simples e tradicional como Dragon Quest. Mal posso esperar para jogar o próximo.

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About Orakio Rob, "O Gagá"

Dono do império corporativo Gagá Games, o velho Gagá adora falar sobre si mesmo em terceira pessoa. E sim, é ele mesmo que está escrevendo este texto.