Dossiê Sonic: Sonic the Hedgehog 2 (Mega Drive)

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Este post é parte da série Dossiê Sonic, na qual o Gagá vai jogar todos os jogos clássicos da série Sonic (e alguns menos conhecidos também) e preparar posts especiais sobre cada um deles. Para acessar o índice com links para outras partes da série, clique aqui.

Muitos fãs de Sonic correm a apontar Sonic 2 como o melhor título da franquia. Lançado apenas um ano depois do arrasa-quarteirão Sonic the Hedgehog, o que esta continuação poderia oferecer para merecer tanta adoração? É o que vamos tentar descobrir neste post.

Com o incrível sucesso do primeiro jogo, a SEGA fez uma propaganda enorme em cima do lançamento de Sonic 2. Lançado em 21 de novembro de 1992 no Japão, ele chegava aos Estados Unidos e à Europa apenas três dias depois, numa terça-feira que o marketing tratou de rotular como “Sonic 2sday”, brincando com a palavra “tuesday” (terça-feira). Se pudermos confiar na Wikipédia, foi não só o jogo mais vendido da série como também o mais vendido do Mega Drive.

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A Emerald Hill Zone já abre o jogo em grande estilo, com um cenário bonito e trilha empolgante

Sabendo que a mecânica do primeiro Sonic era muito boa, a SEGA não tentou reinventar a roda. Em vez disso, aprimorou o que já havia dado certo no primeiro jogo e tornou tudo ainda melhor. Os gráficos ficaram mais coloridos e variados, com movimentação de vários planos e elementos de cenário que ficam à frente do protagonista, dando a impressão de que Sonic se mistura aos cenários, um efeito muito impactante.

A música continua excelente e animadíssima. Os programadores até abusaram um pouco, e alguns instrumentos somem quando outros efeitos sonoros ocorrem simultaneamente, o que não chega a prejudicar a experiência, mas mostra que a equipe quis extrair até a última gota de poder do console.

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Momento pinball na Casino Night Zone. O jogador controla os rebatedores com o joystick

Mas também temos algumas pequenas novidades. A primeira delas é um novo movimento que faz Sonic, parado, virar uma bola, ganhar impulso e sair em disparada. É bastante útil para aqueles momentos meio irritantes do primeiro jogo em que você não tinha impulso suficiente para subir uma rampa. O novo movimento contribui para fazer o jogo parecer ainda mais rápido.

A segunda novidade é a estreia de Miles Tails, a raposinha de duas caudas que segue Sonic o tempo inteiro. Mario já tinha seu parceiro Luigi fazia tempo, mas a Nintendo ainda não tinha bolado um jeito razoável de colocar os dois personagens juntos na mesma tela nos jogos de plataforma que lançava — diga-se de passagem, salvo engano da minha parte, ela só conseguiu com o recente lançamento de New Super Mario Bros. Wii. A SEGA apresentou uma solução bastante elegante: Tails repete todos os movimentos de Sonic, porém com um ligeiro atraso. Como ele geralmente está um pouco atrás do protagonista, isso faz com que, teoricamente, ele salte e realize seus movimentos na hora certa. Sim, teoricamente, porque na prática o bichinho morre umas três vezes por minuto :)

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O modo de dois jogadores é ousado, e tem lá suas falhas, mas até que diverte

Tails pode não ser incrivelmente útil, e até atrapalhar às vezes (já passou minha frente e “roubou” uma valiosa bolha de ar na parte submersa da Aquatic Ruin Zone), mas o bichinho é carismático. Vez ou outra ele pode acertar um inimigo que você perdeu, e até acertar umas boas bordoadas nos chefes de fase. Uma coisa muita divertida é que outro jogador pode controlar Tails usando o segundo controle. O foco do jogo continua sendo Sonic (é ele quem controla a movimentação da tela) e Tails às vezes sai da tela, mas dá para se divertir bastante controlando os dois na mesma tela. Diga-se de passagem, o futuro Kirby’s Epic Yarn da Nintendo parece utilizar um truque parecido, o que mostra como a SEGA estava mesmo à frente de seu tempo.

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A “metade seca” da Aquatic Ruin Zone. Descendo um pouco mais a ladeira, Sonic entra com tudo na parte aquática. Note a vegetação na parte da frente da tela, que contribui para a sensação de profundidade

Quem se empolgar em jogar com um amigo pode se interessar pelo modo de competição. Você escolhe a fase, e o jogo divide a tela em duas metades horizontais. Os jogadores competem por vários objetivos simultâneos: maior quantidade de anéis, menor tempo de conclusão da fase, tudo ao mesmo tempo. É verdade que as fases foram simplificadas e apresentam gráficos confusos e falhos, mas botar o Mega Drive para processar as duas telas ao mesmo tempo é esnobar a concorrência, não é não?

A chegada de Tails é muito bem-vinda, mas não é por causa dele que Sonic 2 é tão popular. O grande lance é que o jogo oferece tudo o que o primeiro oferecia, só que com maior complexidade, maior variedade e maior dificuldade, um prato cheio para os chamados “jogadores hardcore”, que já haviam debulhado o primeiro Sonic de trás pra frente e de frente pra trás, e que agora buscavam desafios (e recompensas) maiores.

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Se Sonic for agarrado por este badnik, você pode usar Tails para libertá-lo

O design das fases é o principal responsável por isso tudo. Para começar, o número de atos por estágio foi diminuído para dois, o que é ótimo, já que era meio maçante passar por três atos usando o mesmo cenário no outro jogo. Mas o número de áreas aumentou de sete para doze, e cada uma exige um estilo diferente de jogabilidade: na Casino Night Zone, Sonic praticamente vira uma bola de pinball, e você controla os rebatedores; a Chemical Plant Zone é quase uma grande pista de corrida, cheia de loopings; na Mystic Cave Zone você precisa ser cauteloso com espinhos e pilares móveis que podem esmagar Sonic, puxando cordas que abrem novos caminhos. Cada fase traz não só uma mudança de cenário, mas também uma mudança de estilo de jogo.

Vários estágios aproveitam ideias do jogo anterior. A Emerald Hill Zone, por exemplo, é quase uma recriação da Green Hill Zone. A Casino Night Zone lembra bastante a Spring Yard Zone, com seus fossos em “U” e cenário noturno e iluminado. Um dos caminhos da Aquatic Ruin Zone passa por baixo d’água, e estão de volta as infames bolhas de ar da Labyrinth Zone.

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Super Saya-jin Sonic decolando na Mystic Cave Zone

Todas as fases oferecem caminhos alternativos. Geralmente é mais difícil alcançar o caminho mais alto, mas ele costuma ser o mais recompensador. Muitos itens só podem ser alcançados por rotas secretas bastante difíceis de se encontrar. Sonic 2 ainda zomba do jogador, e por vezes, enquanto nosso herói rola por algum tubo ou é lançado por uma sequência de canhões, podemos ver uma área que ainda não conseguimos alcançar, um monitor intocado, uma vida extra… como chegar a essas regiões? Só procurando muito, o que é um prato cheio para quem comprou o jogo e quer que ele renda bastante.

Não foram só as fases que receberam um upgrade: os inimigos (ou “badniks”) aprenderam a se defender, e esse pequeno detalhe altera todo o funcionamento do jogo. É quase certo que quem jogar pela primeira vez vai começar a primeira fase pegando a primeira meia dúzia de anéis, saltando sobre o macaquinho inimigo na árvore… e levando um coco na cabeça! Logo de cara você percebe que agora as coisas não vão ser tão fáceis. Vagalumes ficam invencíveis quando brilham; gafanhotos disparam suas garras quando você salta sobre eles (é quase impossível evitá-las); um dos inimigos tem até um escudo, que maneja com destreza para bloquear ataques por todos os ângulos. Não dá mais para sair correndo e pulando em cima do que vier pela frente como no jogo anterior: você precisa aprender o modus operandi de seus inimigos e se aproximar deles com cuidado, e muitas vezes é melhor evitá-los. Obviamente ainda temos os bons e velhos segmentos de alta velocidade, mas os intervalos entre eles ficaram bem mais perigosos.

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À esquerda, o primeiro inimigo do jogo se prepara para acertar um coco bem na cabeça do nosso herói. À direita, um badnik com escudo e armadura!

Enquanto as fases de bônus de Sonic the Hedgehog tiravam onda com o Super NES, exibindo seu efeito de rotação de cenário, aqui temos fases em corredores totalmente tridimensionais, renderizados em estações gráficas e transportados para o Mega Drive. A câmera fica atrás de Sonic e Tails, e os dois precisam correr para reunir a quantidade de anéis exigida a cada checkpoint para conseguir uma das sete esmeraldas. E olha, não é nada fácil… a velocidade é alta, há obstáculos que o farão perder anéis e não dá tempo de reagir sem memorizar o percurso. Geralmente, ao entrar em um novo estágio de bônus, a primeira reação é achar que é impossível. Depois você repete, repete, repete e acaba decorando onde estão as curvas, os anéis e os inimigos. Leva tempo, mas é muito divertido. E não tem moleza não: saiu da fase de bônus, perdeu todos os aneis coletados antes de entrar nela. Você meio que troca suas chances de conquistar vidas e continues com a pontuação no final da fase pela oportunidade de garantir uma nova esmeralda.

Para completar, as esmeraldas não servem mais apenas para mudar uma tela no final do jogo. Recolher todas as sete  habilita a transformação de nosso herói em “Super Sonic”: coletando cinquenta anéis e saltando, o ouriço fica todo amarelo e ainda mais enfezado, disparando em altíssima velocidade pelos estágios, com imunidade aos ataques inimigos. Poder decolar pelas fases, só curtindo e descobrindo novas áreas graças às novas velocidades alcançadas, é como uma recompensa para o jogador que investiu dias, provavelmente semanas, na repetição dos mesmos estágios para conquistar as sete esmeraldas.

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Mais uma vez, as fases de bônus mostram do que o Mega Drive é capaz

Este jogo é um exemplo de uma feliz união de talentos. Os programadores, os designers dos personagens, o compositor da trilha sonora, a turma da criação dos estágios, toda a equipe é brilhante e faz um trabalho fabuloso. Sonic 2 é uma grande vitória da SEGA, uma lembrança dos saudosos tempos em que a empresa contava com um time incrivelmente talentoso sob sua tutela e ditava os rumos dos corações de jogadores do mundo inteiro. Bons tempos.

About Orakio Rob, "O Gagá"

Dono do império corporativo Gagá Games, o velho Gagá adora falar sobre si mesmo em terceira pessoa. E sim, é ele mesmo que está escrevendo este texto.