Cybergame: análise do Gagá (texto)

Eu já publiquei aqui no Gagá Games um loooongo review em vídeo do Cybergame, o console-emulador da Dynacom. Mas para a turma que não tem banda larga, ou que não gosta de ver vídeos na internet, aqui vai um relato por escrito da minha opinião sobre o Cybergame.

A título de introdução, para quem está por fora: o Cybergame é um console lançado no fim do ano passado pela Dynacom. Ele não aceita cartuchos de nenhum console. Em vez disso, você carrega ROMs (cópias digitais de jogos) dos consoles compatíveis para a memória do Cybergame, ou para o cartão SD que acompanha o aparelho. Os consoles emulados são: NES, Super Nintendo, Game Boy, Game Boy Color, Game Boy Advance, Mega Drive e SunMedia 32 bits, além de rodar jogos em Flash. O aparelho também tem capacidades multimídias, e afirma ser capaz de rodar os mais diferentes formatos de mídia. Segundo o press-release da Dynacom:

“(…) reproduz arquivos de áudio (MP3, WMA e WAV), vídeo (AVI, MP4, RMVB, WMV, 3GP etc), imagem (JPG) e texto (TXT); roda aplicativos e filmes em diferentes formatos, inclusive, vídeos em alta definição (HD).”

Atendendo a um pedido meu, a Dynacom fez a imensa gentileza de fornecer um aparelho para testes. Como nosso assunto é videogame, eu me concentrei mais nesse aspecto do Cybergame do que nas capacidades multimídias, embora tenha feito alguns poucos testes nesse sentido também. Vamos conferir o resultado?

O console

O Cybergame é um aparelho leve e pequeno, praticamente com as mesmas dimensões de um switch de computador básico. Ele deve se encaixar facilmente no rack da sua sala, e como ele roda filmes e arquivos MP3, acredito que a intenção seja mesmo a de ter o aparelho na sala, sempre ao lado (ou embaixo) da TV. As únicas saídas de áudio e vídeo são RCA, ou seja, nada de HDMI ou vídeo componente. Um pequeno controle remoto permite reproduzir, pausar, avançar, voltar, aumentar e diminuir o volume e acessar o menu. O controle é leve e discreto e funciona bem, e você vai poder assistir aos seus filmes sem levantar do sofá para nada.

Acompanham o console dois joysticks semelhantes aos do primeiro Playstation, com conectores DB9. Embora esse seja o mesmo conector de joysticks de muitos outros consoles, em nossos testes o popular controle de seis botões do Mega Drive (que também tem conector DB9) encaixou, mas não funcionou. Aparentemente, o Cybergame só é compatível com seu próprio controle, o que não é uma boa notícia: os botões são duros e precisam ser apertados com força. Fazer diagonais também não é lá muito fácil. Se pudéssemos sugerir à Dynacom uma única melhoria para aumentar a qualidade do Cybergame, seria a troca do controle, ou no mínimo a venda de um controle melhor por fora. Não custa torcer, não é mesmo?

A memória interna do Cybergame armazena 512 MB, mas também está incluído no pacote um cartão SD de 4 GB, que pode ser encaixado na parte frontal do console. Um prático adaptador SD para USB permite conectar o cartão a qualquer PC com entrada USB para a cópia de jogos, filmes e arquivos MP3, por exemplo. Outra possibilidade é ligar o console diretamente ao PC, via conector mini-USB na frente do Cybergame (o cabo acompanha o pacote).

Games e emuladores

É claro que quem compra o Cybergame está interessado mesmo é nos games. A memória do console já traz alguns jogos simples de NES, como Milk & Nuts, Thexder, Solomon’s Key e outros (e que, ao contrário do que a empresa alega, não são freeware). Para fins de testes, nós testamos ROMs de vários dos consoles compatíveis com o Cybergame.

Cabe uma observação: o download de ROMs de jogos protegidos por direitos autorais é uma questão complicada, e para todos os efeitos não é uma prática aceita legalmente. Nosso teste do Cybergame tem caráter exclusivamente científico, portanto espero que ninguém me processe!

Vale observar também que o Cybergame tem uma função que permite salvar o jogo do ponto em que você parou a qualquer momento para continuar mais tarde. Esse recurso funciona em todos os emuladores testados.

E então, vamos ver como foi o desempenho dos emuladores do Cybergame?

NES

Jogos testados (em vermelho não rodaram): Super Mario Bros 3, Ninja Gaiden 2, The Legend of Zelda, Castlevania 3, Batman, Final Fantasy I

Resultado: dentre os jogos testados, apenas Castlevania 3 não rodou. Em todos os outros a qualidade gráfica se mostrou muito boa, com uma pequena perda de quadros na movimentação que pode atrapalhar um pouco em jogos que exijam mais precisão, mas não chega a ser um problema grande. O som ficou ótimo em todos os casos. Quem não exigir uma emulação perfeita deve ficar bastante satisfeito com o resultado.

Avaliação: um bom emulador, a perda de quadros é pequena e não atrapalha muito.

MASTER SYSTEM

AVISO: o Master System não é oficialmente suportado pelo Cybergame!

Jogos testados (em vermelho não rodaram): Alex Kidd in Miracle World

Resultado: segundo a Dynacom, o Cybergame não é compatível com jogos de Master System. Ainda assim, descobrimos que é possível rodar jogos do console usando um programa chamado PocketSMS, que converte ROMs de Master System para o formato GBA, permitindo que rodem no console como se fossem títulos de Game Boy Advance. Mas esse é um “gatilho” extra-oficial, não aprovado (e nem sugerido) pela Dynacom, e não rende bons resultados; a perda de quadros é muito grande, impossibilitando a jogatina.

Avaliação: inviável, mas nós forçamos a barra nessa :)

MEGA DRIVE

Jogos testados (em vermelho não rodaram): Sonic, Sonic 3, Gunstar Heroes, Phantasy Star 2, Gaiares, Streets of Rage, Virtua Racing, Out Run, Beyond Oasis, Doom (32x), Out of this World (Sega CD)

Resultado: a emulação de Mega Drive apresenta bons gráficos, com uma perda de quadros mais acentuada do que a do emulador de NES, mas ainda assim com desempenho razoavelmente bom. Jogos mais acelerados, como Gunstar Heroes, rodaram sem lentidão. O maior problema é o som: as músicas ficam distorcidas, e os efeitos sonoros perdem muita qualidade. Se as músicas dos jogos de Mega Drive forem importantes para você, pode esquecer. Outro problema: o emulador não reconhece os seis botões do Mega Drive. Embora o controle do Cybergame tenha botões de sobra, você só vai poder usar mesmo A, B e C.

Tirando esses detalhes, é um emulador mediano, com uma boa compatibilidade. Só não funcionaram mesmo Virtua Racing (que muitos emuladores têm dificuldade de emular), Doom (que é de 32x, e o Cybergame não afirmava mesmo ser capaz de rodar jogos dessa plataforma) e a versão de Sega CD de Out of this World (mais uma vez, o Cybergame não afirmava ser capaz de rodar jogos dessa plataforma).

Avaliação: um emulador mediano, dá para jogar razoavelmente bem (com a TV no mute).

SUPER NINTENDO

Jogos testados (em vermelho não rodaram): Super Mario World, Final Fantasy III, F-Zero, Super Mario Kart, Chrono Trigger, Street Fighter 2, Street Fighter Alpha 2, Star Fox, Rock n’ Roll Racing, Tales of Phantasia, Super Mario RPG, Super Mario All-Stars, Secret of Mana, Donkey Kong Country, Dragon Quest V

Resultado: devido à profusão de chips especiais em cartuchos de Super Nintendo, nossa lista de testes ficou mais longa aqui. De modo geral, os jogos rodaram com bons gráficos e velocidade (alguma perda de quadros que pode atrapalhar um pouco em jogos que exijam mais precisão, mas nada muito dramático). O som foi uma surpresa: as músicas permaneceram bastante fiéis às originais.

Os jogos que não rodaram possuem chips especiais, e já esperávamos que não funcionassem. Dos que rodaram, a decepção ficou por conta de F-Zero, onde a perda de quadros é enorme e fica quase impossível controlar a nave. De resto, tivemos um bom desempenho, com alguns momentos surpreendentes (Street Fighter 2 e Rock n’ Roll Racing quase perfeitos).

Avaliação: bom emulador, mas cuidado porque muitos jogos não rodam. Além disso, jogos que abusem dos efeitos de zoom e rotação do Super Nintendo podem ficar bem lentos.

GAME BOY/GAME BOY COLOR

Jogos testados: Kirby’s Dreamland, Pokémon Red, Super Mario Land 3: Wario Land, The Legend of Zelda: Oracle of Ages (GBC)

Resultado: um dos melhores emuladores do Cybergame. A pequena perda de quadros marca presença outra vez, mas como no caso do NES, não chega a atrapalhar. A imagem é esticada para caber na tela da TV, e o resultado foi bem melhor do que eu esperava na minha TV LCD de 26 polegadas. O som também é bom, e ao menos na música da primeira fase de Kirby’s Dreamland, que eu conheço bem, não deu para notar falhas.

O único jogo de Game Boy Color testado, The Legend of Zelda: Oracle of Ages, também ficou muito bem na tela grande, com um ótimo colorido e boa velocidade.

Avaliação: com bom desempenho, é uma ótima pedida para quem quer levar os clássicos da telinha do Game Boy para a telona da TV.

GAME BOY ADVANCE

Jogos testados (em vermelho não rodaram): Castlevania Circle of the Moon, Golden Sun, Kingdom Hearts, Metroid Zero Mission, Shining Soul, Sonic Advance, Pokémon Ruby

Resultado: o emulador do Game Boy Advance talvez seja o pior. A perda de quadros é mais acentuada do que nos outros emuladores, e embora o resultado seja “jogável”, você vai perder muita precisão e vai ter que se acostumar com mudanças bruscas de velocidade. Os gráficos esticados para a TV e as músicas, no entanto, têm boa qualidade.

Os jogos que não rodaram são problema para alguns outros emuladores de GBA, e já esperávamos que não rodassem. Só para constar, a função de relógio em tempo real, usada em jogos como Pokémon Ruby, não funciona.

Avaliação: Médio. Até dá para jogar títulos mais “mansos” como RPGs, mas não é muito divertido para jogos de ação por causa da perda de quadros e da velocidade oscilante.

FLASH

O Cybergame roda jogos em Flash, mas eu não cheguei a testar porque eles fogem um pouco à minha área de interesse (retrogames). No entanto, tentei rodar um jogo (Robot Unicorn Attack) que pedia que eu pressionasse a tecla X para iniciar. Como não tem tecla X no Cybergame e não é possível atribuí-la a algum botão do joystick, não consegui iniciar o jogo.

Multimídia

Não fiz muitos testes nessa área, porque não entendo muito de codecs e resoluções… fiz apenas dois testes básicos, com filmes em DivX de resolução mediana.

A qualidade da imagem não ficou perfeita, quem prestar atenção vai notar uma pequena perda de quadros, mas é coisa bem discreta. Ao menos nos testes que eu fiz, eu só notei porque prestei muita atenção mesmo. Como não sou um “power-user” de multimídia, achei o resultado bastante satisfatório, e assistiria a filmes no Cybergame sem pensar duas vezes. A turma mais exigente e ligada em vídeos de altíssima qualidade, no entanto, pode chiar um pouco.

O Cybergame também leu o arquivo de legenda SRT que eu coloquei na mesma pasta do filme, ou seja, você vai poder curtir os filmes com legendas nesse formato sem dificuldades.

Melhorias futuras?

Vale lembrar que o console pode receber atualizações de firmware no futuro. O firmware é o programa que controla a operação de todo o console, e atualizações podem aumentar a qualidade dos emuladores e acrescentar novos recursos. Embora a Dynacom não garanta que o firmware vá ser atualizado, o site da empresa já oferece um manual em PDF explicando como atualizar o firmware, e ainda uma cópia do firmware que já vem no aparelho, caso você faça alguma experiência louca com seu Cybergame e destrua o original.

Como o Cybergame é baseado no console chinês Letcool, parece que cabe mais à empresa chinesa Chinavision a responsabilidade de lançar atualizações de firmware, e a Dynacom cuidaria apenas do trabalho de adaptação para o Cybergame. Portanto, não adianta martelar a paciência da Dynacom pedindo atualizações de firmware: esperem a Chinavision lançar a atualização, aí sim a gente martela a Dynacom para adaptar para o Cybergame.

Conclusão

E então, vale a pena ou não comprar o Cybergame? Isso depende.

Os emuladores do Cybergame não são perfeitos. Retrogamers inveterados, acostumados a rodar emuladores de alto desempenho em seus PCs, podem se aborrecer com os problemas sonoros do emulador de Mega Drive, ou com a perda de quadros, fora que muitos jogos de Super Nintendo são incompatíveis. Se você é do tipo que não tolera nenhuma perda de qualidade, saiba que os emuladores do seu PC vão oferecer uma experiência bem mais fiel. Para você, talvez o Cybergame não seja bom negócio. Não venha depois me dizer que eu fiz você gastar dinheiro à toa.

Por outro lado, embora os emuladores não sejam perfeitos, a qualidade deles varia de mediana a boa, e todos são plenamente “jogáveis”. No caso do Mega Drive, por exemplo, eu não conseguiria jogar Sonic ou Streets of Rage nele, porque conheço as músicas originais, e ouvi-las “mutiladas” no emulador do Cybergame me incomoda. Porém, no caso de Gunstar Heroes, por exemplo, eu nunca prestei atenção na trilha sonora enquanto jogava, então a qualidade do som não faz muita diferença e eu sou capaz de passar a noite inteira jogando no Cybergame, porque o desempenho gráfico é bom. No caso dos outros consoles, como o NES e o Game Boy, os resultados estão até bem próximos do que se encontraria no console normal, e no emulador de Super Nintendo eu jogaria Chrono Trigger do início ao fim sem pestanejar, pois a perda de quadros é pequena e a música se manteve boa.

Os emuladores do Cybergame são bons o suficiente para divertir os menos exigentes. O maior vilão é seu próprio joystick.

Na minha opinião, o maior problema do console nem é a qualidade da emulação, mas sim a qualidade do joystick. É dureza soltar hadokens em Street Fighter, ou atirar na diagonal em Gunstar Heroes. Se pintar um controle novo e decente para o Cybergame, o console vai ganhar MUITOS pontos em diversão. É realmente uma pena que o controle do Mega Drive não funcione nele.

Se você não pode dar um console de última geração para o seu filho mas quer presenteá-lo com uns bons joguinhos do passado, o Cybergame é uma excelente opção. O preço é bom (250 reais, quando este post foi escrito), e embora a qualidade não seja fabulosa, o console está longe de ser mais uma tapeação para pais desinformados. É claro que se seu filho já se acostumou a jogar Playstation 3 no vizinho, provavelmente vai odiar os jogos lançados a quinze, vinte anos que o Cybergame roda. Parto do princípio de que você conheça seu moleque. Minha priminha de dez anos, por exemplo, não é muito versada em games, e amou Sonic à primeira vista. Mas o meu sobrinho que tem um Nintendo DS e um PSP certamente vai ter dores de estômago terríveis ao ver os gráficos do primeiro Super Mario Bros, então veja lá o que você vai fazer!

Rodar filmes em diversos formatos também é um recurso que deve ser levado em conta. Se você está querendo um player bom (não excelente) para rodar filmes baixados da internet, por exemplo, a compra fica ainda mais interessante. Mais uma vez, depende das suas expectativas: quem quer uma reprodução de vídeo brilhante vai achar defeitos, mas para as necessidades de um consumidor mediano a qualidade é mais do que aceitável. Eu, por exemplo, já transformei o Cybergame em player oficial da casa, e espero que a Dynacom não me peça para devolver o aparelho :)

A praticidade também é um ponto importante para quem é menos versado em computadores e configurações de programas. O único estágio anterior à jogatina consiste em encaixar o cartão SD no computador e copiar os jogos que você quiser para a pasta GAME. Retire o SD do computador, encaixe no Cybergame e pronto, fim da configuração. Uma vez feito isso, quando quiser jogar, você só precisa ligar o console, escolher a opção JOGOS (que é a opção padrão) e selecionar o jogo usando o controle para que o emulador correto  seja iniciado e bote o jogo para rodar automaticamente. Sem opções complicadas, sem enrolação, tudo automático. Qualquer criança pode navegar entre os jogos e jogar o que quiser sem confusão.

Se você ainda tiver dúvidas sobre se o Cybergame é ou não para você, eu recomendo que assista ao meu review em vídeo, onde eu mostro vários jogos em funcionamento. Assim você não diz que a cigana te enganou depois.

Para fechar, eu gostaria de agradecer muitíssimo à Dynacom por ter nos cedido o console para testar. É uma atitude que mostra que a empresa está interessada em conhecer a opinião de seu público, ouvindo nossas críticas e sugestões. Agradeço também à Pimenta Comunicação, que é a assessoria de imprensa da Dynacom e fez um excelente trabalho ao intermediar nosso diálogo.

Espero ter tirado as dúvidas de todos sobre o Cybergame. Um abraço e até o próximo review!

ONDE COMPRAR: na loja virtual da Dynacom. E não, eu não ganho comissão, é só utilidade pública mesmo :)

About Orakio Rob, "O Gagá"

Dono do império corporativo Gagá Games, o velho Gagá adora falar sobre si mesmo em terceira pessoa. E sim, é ele mesmo que está escrevendo este texto.