Academia Gamer: Os Quatro Amores – Eros (parte 04 de 05)

“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Hoje, o amor que vamos tratar é o eros. Vou evitar usar o termo “erótico” por conta das coisas que ele pode evocar e que, embora até tenha a ver, não é a essência desse tipo de amor. Peço até desculpas pelos jogos cujas imagens vou usar enquanto o descrevo e antes de relacioná-los a games. Isso tudo ficará mais claro adiante. Mas adianto que há um problema com os games modernos como acontece com qualquer outra forma de entretenimento moderno. Além de neles haver uma confusão de todos os amores (de que seriam todos uma forma de eros), há ainda uma preocupação direta com o sexo que, embora faça parte do eros, não é seu aspecto essencial. Então, ao contrário dos outros que já falei, este vai ser um post com exemplos mais críticos de jogos do que descrições perfeitas. Coisas da modernidade, fazer o quê?

Costumam pensar que é o eros que mais nos aproxima do eros (que é o amor do “estar apaixonado”). Isso, segundo Lewis, é um erro porque é perfeitamente possível ter experiências sexuais sem eros e, não obstante, o eros inclui muitas outras coisas além da atividade sexual. Portanto, eros não é sinônimo de sexo: a sexualidade pode funcionar sem eros, ou como parte dele.

Uma imagem que achei buscando “Romeu e Julieta” pelo Google. Espero que seja deles mesmo. :-)

Para um evolucionista, o eros é derivado diretamente do sexual: um desenvolvimento de um impulso biológico imemorial. Contudo, embora aconteça do apetite sexual vir antes do eros, não é o comum. O que vem primeiro é uma prazerosa preocupação com a amada: “um homem neste estado não tem, na verdade, tempo para pensar em sexo. Ele está ocupado demais pensando numa pessoa”. Ou sexa, o eros é repleto de desejo, mas pode não ser de caráter sexual por ser um amor contemplativo. Quando emerge o elemento sexual, o apaixonado não sente (exceto se influenciado por teorias) que este elemento esteve o tempo todo na origem de tudo, “por trás” de seu amor. O eros captura uma pessoa e, ao invadi-la, reorganiza uma série de coisas além da sexualidade. Enquanto o desejo sexual quer a coisa em si, o eros quer a amada.

Um homem lascivo, por exemplo, não quer uma mulher. Na realidade, isso é o que ele não quer: o que almeja é um prazer (uma coisa) para a qual o instrumento necessário é, por acaso uma mulher. O eros, ao contrário, faz um homem realmente querer não “uma mulher”, mas uma mulher específica: “o amante deseja a amada mesma e não o prazer que ela pode dar”. A escolha não é feita por fazer uma estimativa e descobrir que seus abraços são mais prazerosos que os de outra mulher: pensar em tais questões comparativas é retirar-se do eros.

A transformação essencial trazida pelo eros é que ele muda maravilhosamente um prazer-necessidade no mais apreciativo de todos os prazeres. Até pode soar ilógico desejar um ser humano e não o prazer, conforto, ou serviço que ele poderia nos proporcionar. Isso é muito difícil de explicar e é por isso que, em sua época, os amantes costumavam dizer que queriam “comer” um ao outro (e, devo dizer, hoje é uma expressão que degradou-se na pura atividade sexual). Se o desejo sexual não tem eros, é só um fato sobre nós mesmos e, com ele, é um fato sobre o amado sendo o prazer um subproduto. Uma das primeiras coisas que o eros faz é apagar a distinção entre dar e receber. Pensando sobre o casamento, Lewis aponta que a tentação (que leva ao pecado) neste reside na avareza e não na sensualidade. Os guias medievais eram escritos por celibatários que desconheciam o fato de que o eros, alterando nossa sexualidade, reduz o caráter importuno e viciante do apetite tornando a abstinência mais fácil, sem diminuir em nada o desejo. O perigo espiritual do eros não é, portanto, uma preocupação primariamente sensual.

Um game (fraco) que apela a mulheres para angariar jogadores. Falei um pouco dele em um post bem antigo que podem ler clicando aqui.

O perigo que reside especificamente sobre o ato de amor é a solenização do sexo que nos incita a levá-lo muito a sério, ou, em melhores palavras, sob uma forma errada de seriedade. Por exemplo, a pronografia como “séria” e anúncios que já em sua época, apresentavam o sexo como um arrebatamento que leva a desmaios (e não a alegrias). E ele se tornou ainda mais “sério” a partir das obras de Freud que, sugere ele, sejam imaginadas abertas ao redor do leito nupcial. O problema dessa “seriedade errada” é que esconde o fato do ato sexual ser verdadeiramente sério e por quatro razões: é a parte corpórea do casamento (imagem mística da união entre Deus e o homem); nossa participação humana nas forças da vida e da fertilidade; normalmente pelas obrigações envolvidas e da importância de ser progenitor; e por ter grande seriedade emocional na mente dos participantes.

Porém, é preciso ter claro que essa seriedade não é austera porque essa atitude sim violaria nossa condição humana. O que explicaria, segundo ele, o fato de existirem piadas sobre sexo (muitas repulsivas e velhas) em todas as línguas. E isto ameaça bem menos o ato do que a seriedade reverente que critica: “expulse a brincadeira e o riso da cama e uma falsa deusa poderá ocupar o lugar”. Faz parte do jogo que, em situações perfeitas um dos amantes (ou ambos) perca a disposição para o ato, ou que em momentos em que atos exteriores são impossíveis, o ímpeto os abrasa com força. Somente entre casais que divinizam o sexo que tais eventos causam confusão (na forma de ressentimentos, autopiedades, suspeitas, vaidades e “frustração”); amantes sensíveis riem, porque faz parte do jogo. O prazer levado ao extremo nos destrói tanto quanto o sofrimento; no sexo existem elementos de ritual e de farsa.

Um aspecto crucial é que o eros não aspira à felicidade. Para Lewis, a prova disso é que é inútil tentar separar dois amantes provando-lhes que seu casamento será infeliz. Não é um problema de “cegueira”, na verdade eles percebem isso só que o prognóstico de tristeza não os dissuade. Quando existe eros “preferimos partilhar infelicidade com a amada que ser felizes de outro modo”.

Algo bem comum: uma visual novel que vira um anime (bem mediano por sinal). Pode não ser um ótimo exemplo de eros, mas é um dos raros jogos deste tipo em que o sexo é deixado em segundo plano (ou ao menos deveria ser pelo jogador).

Por isso, o eros pode levar tanto ao bem como ao mal. Em todo seu esplendor, o eros está disposto a qualquer sacrifício, exceto a renúncia. Contudo, se o eros nos fala como um deus e o obedecemos incondicionalmente, ele se torna em um demônio. Dentre todos os amores, este é o mais fácil de sofrer esta queda. Notem que o risco não é que os amantes se idolatrem mutuamente (o que é até esperado), mas que idolatrem, juntos ou não, o próprio eros. É o mais mortal dos amores ao combinar a instabilidade com juras de permanência: sempre promete fidelidade eterna e crê que “desta vez é para valer”. Embora, evidentemente, promessas façam sentido porque o eros rejeita a ideia de ser transitório.

Por isso, Lewis aponta que o “desapaixonar-se” é uma “desredenção”. A sua condição de transpor o apetite altruísta e de por de lado a felicidade individual é intermitente mesmo entre os melhores amantes que existem. O único casal cuja união está ameaçada é quando há endeusamento do eros: esperam que o mero sentimento faça tudo por eles e, na frustração, culpam o eros ou o parceiro. Esquecem que somos nós que devemos cumprir os votos feitos e para que façamos as obras do eros quando ele não está presente. Para que o eros continue sendo eros, precisa de ajuda: precisa ser governado.

E como isso se aplica a games? Este foi um grande problema para mim. Principalmente porque o eros só se mostra enquanto tal após bastante tempo. O “apaixonar-se” revela sua grandeza, mas sua plenitude só aparece quando há essa entrega total em prol de uma outra (e única) pessoa, a despeito de nossa própria felicidade. Para o Lewis, seria algo durante o casamento e, como games às vezes terminam com casais sendo formados, fica um pouco difícil pensar em bons exemplos que contemplem não só “a primeira vista”, mas a esse momento mais futuro.

Acima, uma imagem de Borderlands.

Por isso, acabei selecionando alguns jogos para pensar a questão, principalmente pela crítica que o Lewis faz. Jogos modernos geralmente apelam à sensualidade de uma maneira análoga ao que Lewis comenta sobre os anúncios. Em um ensaio dele que li esses dias, ele lamenta o fato da literatura de sua época pender para narrações de atos sexuais como maneira de angariar um público maior. E em games, a mesma coisa acontece. Tentei exemplificar com alguns games antigos essa ênfase simplesmente no ato sexual.

Felizmente, essa não é a regra. É possível que experimentemos o eros em certos jogos como experimentamos ao ler Romeu e Julieta, ou qualquer outro bom romance sobre isso. Tentei me manter a jogos mais antigos, mas talvez não sejam velhos o suficiente. Peço que sugiram outros nos comentários, por favor. Para isso, gostaria de citar Kanon (que originou uma série de TV) que, tanto em sua versão “para adultos” como em sua versão “infanto-juvenil”, enfoca muito mais o apaixonar-se do que o ato sexual. Mas mesmo assim, tenho lá minhas dúvidas sobre se este seria um bom exemplo…

Como vimos, o eros passa justamente por isso. Não é “querer uma mulher” (no caso de um homem, claro), mas uma mulher específica. Não temos como saber se “depois do jogo”, o casal que ajudamos a formar realmente se manteve unido até a velhice e até a morte mostrando a plenitude do eros, mas não custa nada imaginar. O fato de haver um desejo e este desejo ser pela totalidade da pessoa já pode ser considerado para nossa reflexão.

Admito que nunca joguei muito The Sims, mas parece servir para exemplificar o eros já que nele casamos, temos filhos etc.

O problema que encontrei em buscar jogos para exemplificar o eros é que ele sempre aparece como algo que realmente provoca desmaios, ou que é puro instinto, ou puro sexo. E, como vimos, o eros inclui tudo isso transformando-os; mas o essencial é o desejo por uma única pessoa em sua totalidade e não pelo que ela pode fazer por nós, ou nos oferecer. É fácil falar de sexo em games, mas difícil falar de eros. Talvez em jogos em que isso é um aspecto pouco relevante isso seja mais visível como em The Sims, ou o antigo Alter Ego (para o qual estou planejando uma resenha). Nestes, podemos provar um pouco de afeição e amizade além de eros.

Por algum acaso, compartilham da mesma dificuldade que eu? Digo, de encontrar um jogo que leve o eros em consideração sem endeusá-lo (e tornando-o no demônio que pode ser) e sem reduzi-lo unicamente ao ato sexual?

Lendo “os quatro amores” de novo, fiquei até pensando sobre essa questão da banalização do erótico (ou a sua tendência a se tornar em pornografia) e outros games em que relações entre amantes são presentes. Por exemplo, em Final Fantasy VIII, em Final Fantasy IV e em muitos outros jogos que já comentei por aqui e que já discutimos em algum momento. Será que eles seriam realmente exemplos de eros?

Uma das primeiras cenas do jogo Alter Ego em que você acompanha um homem (ou uma mulher) do seu nascimento até sua morte.

Enfim, fecho esse post com uma pergunta. O eros aparece em games em sua plenitude, ou somente de suas formas “decaídas”?

É isso, até o próximo (e último) post dessa série especial!

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.