Pier Solar And The Great Architects (Mega Drive)

Fala velharada! Este é meu primeiro post depois da recauchutada do blog. Vocês sabem como é, o pneu já tava velho e precisando de uma sola nova :D Enquanto o chefinho vai fazendo as mudanças, eu vou tocando o meu barco mar adentro. E com um imenso prazer que inauguro a nova fase do Gagá Games com esta mega matéria sobre Pier Solar. Espero que gostem!!! :D

Pier Solar é um RPG de batalhas baseado em turnos. Quem já jogou Phantasy Star, Chrono Trigger, Final Fantasy vai estar em casa. Você vai andando pelos lugares e as batalhas acontecem. A história começa meio clichê, mas muda da água pro vinho quando menos se espera. As interações com outros personagens espalhados pelo mundo estão muito boa. Suas falas são sempre dicas de como proceder e do que está acontecendo, dando um panorama da situação, além de enriquecer a história.

Uma história bem arquitetada

Você é Hoston, um adolescente de personalidade muito forte, que vive em um vilarejo chamado Reja. Seu pai está muito doente e o médico está viajando pra fora da cidade. A única chance de seu pai é uma erva ( :D ) que se encontra em uma perigosa caverna numa floresta ao redor do vilarejo. Claro que Hoston irá desobedecer sua mãe, quando ela diz pra não sair pra procurar essa erva. Assim, inocentemente começa uma aventura que se transformará numa grande intriga de proporções épicas e que afetará o destino de todos.

A beleza em pixel-art

Os gráficos de Pier Solar são uma obra de arte. A quantidade de cenários, personagens e inimigos é enorme. Tudo é muito detalhado, animado e colorido. Sabe aquele esquema que a paleta do Mega tem 512 cores, 64 delas simultâneas? Esquece. Os desenvolvedores fizeram milagres. Parece que o Mega Drive tem muito mais recurso gráfico que qualquer jogo de Super Nintendo usando qualquer chip especial. Até camadas sobre camadas de transparência os caras conseguiram fazer. Fora as cutscenes, que estão em tela cheia. Tudo estuprando a resolução máxima do console de 320×224 pixels.

Mas a medalha de ouro vai para as batalhas. Além dos backgrounds lindos, você com um grupo de cinco personagens contra até 12 inimigos. Tudo animado. E de tamanhos diferentes. Tem inimigos pequenos e inimigos grandes, do tamanho dos lutadores de Art of Fighting de Neo Geo. Fora os efeitos das magias. Tudo ao mesmo tempo. Realmente impressionante levando em consideração a capacidade do velho Mega.

Dois caminhos, uma harmonia

Aqui reside a grande particularidade de Pier Solar: existem duas fontes de som.

PCM & FM – Se você só jogar com o cartucho, a utilização dos chips de som do 16 bits da Sega é muito boa. As músicas estão nítidas, com a bateria forte e o baixo bem grave. Toda sintetização instrumental está excelente, de você pensar que o Mega tem muito mais que apenas dez canais de áudio. Os efeitos também estão muito bem produzidos e variados, cada qual casando de forma harmônica com o que é apresentado na tela.

Enchanced Soundtrack Disc – É outro nível e o grande diferencial do jogo. É o único game de Mega Drive lançado até o momento que permite que o Sega CD seja usado em conjunto com o cartucho. Coloque o cartucho no Mega, o disco no Sega CD e ligue. A primeira coisa que se percebe é a beleza total das composições e seus arranjos. Além dos efeitos presente no cartucho também serem usados, a ESD acrescenta outros, como o barulho de pássaros e marteladas dos ferreiros consertando os telhados em Reja ou como os falatório de uma multidão em uma feira livre em Oasis.

Uma observação. Insira este disco no PC para ter acesso a slides de “making of”, a wallpapers do jogo e outras coisinhas. :D

Batalhando pela glória

O sistema de batalha é parecido com outros jogos de RPGs baseados em turnos, porém tem suas particularidades. Ao iniciar uma batalha você tem disponível três opções:

Run Away – Permite que você fuja sem lutar. Nem sempre esse comando é bem sucedido, se você não conseguiu, prepare-se para a batalha.

AI – É o modo automático, o computador toma as decisões e joga por você.

Man – É o modo manual. Ao escolhê-lo, outro leque de opções é apresentado.

Attack – É o modo básico de ataque. Dependendo do personagem há diversos ataques físicos, como ataques que utilizam armas de uso único, tipo bombas.

Spell – São as magias. Cada personagem possui as suas e eles aprendem novas magias conforme você sobe de nível. Também há magias para ajudar os companheiros, como aquelas que restauram MP ou curam status de “poison”.

Defense – Coloca o personagem selecionado em defesa, seja dele mesmo ou de outro membro do grupo.

Inventory – Através dele durante as batalhas, você tem acesso a alguns itens de seu inventário. São itens de cura e restauração, além de itens de “gather”.

Gather – Coloca seu personagem em modo de “concentração”. Para executar determinados ataques ou magia, um certo nível de gather é requisitado, de 1 a 5. Além de se auto-concentrar, os personagens podem usar itens que aumentam, requisitar ou dar gather para outros membros do grupo. Os outros ataques também tem seu fator de dano aumentado em relação ao gather.

Ainda de forma automática, existem os contra-ataques. Há itens de atributos que ajudam positivamente na probabilidade do contra-ataque, mas isso é o computador que determina conforme uma série de fatores. E isso faz também com que o contra-ataque seja de dois modos. Logo após ser atacado e levar dano, você causa dano no inimigo, ou você esquiva do ataque inimigo e lhe causa dano em seguida.

Toda vez que um comando é dado a seu grupo, ele gasta um turno executando as ações. Logo você não consegue que Hoston, por exemplo,   use um antídoto em Alina e ataque na mesma rodada. Acessórios que aumentem a agilidade, força e resistência podem ser trocados somente no modo padrão, assim como armas e armaduras. No meio das batalhas não é possível mudar atributos.

E já que falamos em atributos, os inimigos e os personagens do grupo possuem elementos que determinam suas forças e fraquezas: terra, água, gelo, fogo e ar. Como é de praxe, uns elementos se sobressaem dos outros.  Ao terminar a rodada, novamente as opções de Run Away, AI e Man estarão disponíveis na mesma ordem em formato de cascata.

Além dos inimigos terrestres, existem aqueles inimigos que voam. Isso às vezes é um problema, já que estes inimigos só são atingidos fisicamente por Alina e Kruller, pois seus ataques são lançamentos de flechas e bolas, respectivamente. Edessot pode atacar, desde que no inventário existam rocks ou bombs ou outras armas de uso único. Os demais personagens, só através de magias.

Três status podem ocorrer durante as batalhas: envenenamento, hibernação e morte. Um personagem envenenado tem seus atributos drásticamente reduzidos, não consegue se concentrar e perde HP a cada turno. Um personagem que hiberne, ficará imóvel até que outro membro o cure. E morte, morreu. Ao acabar as batalhas, todos os status são cessados. Porém o aliado que “ressucita” volta com 1 de HP.

O jogo permite salvar a qualquer momento, quando você não está em batalha. Mas existem situações nas quais o save não está habilitado. Na maioria das cidades há hotéis, onde seu grupo pode dormir para recuperar o HP e o MP. Porém há uma parte no jogo que é um sofrimento. Você passará por diversas localidades em que não terá como descansar. Será uma etapa longa, cheia de batalhas e seus itens e dinheiro não serão suficientes; além disso, em muitas telas o save não poderá ser utilizado. Além da jornada tradicional, durante o desenrolar da trama, existem algumas “sidequests” que apesar de não obrigatórias,  facilitarão muito a sua vida se cumpridas.

Há uma quantidade muito grande de itens. Há itens de uso único como os livros por exemplo, onde seus personagens aprendem novas técnicas de batalha. A maioria deles parece com os de outros RPGs e a descrição no menu de inventário dá uma boa idéia do que eles fazem. Mas cuidado: tem itens que te sacaneiam :D

Minigames e conquistas

Pier Solar tem três minigames que vão sendo liberados conforme jogamos. Um deles é o Pier Pyromar, que consiste num clone de Bomberman com suporte a multiplayer; ele é habilitado depois que você o conclui no avançar da história do jogo principal. Outro é o Mossae’s Quest: você controla Edessot montado em Mossae (um dragão) sobre um mapa das regiões do jogo em gráficos totalmente Mode 7. O nome do lugar a ser sobrevoado aparecerá na tela e você terá que voar sobre ele num determinado tempo para ganhar pontos. Por último, o Eternal Slip! se baseia nos puzzles presentes em várias partes do jogo principal, onde você deve controlar Hoston em um caminho escorregadio sem cair no abismo. Muito punk! :D

Extras bem sacados

- Quando seu grupo morre, é Game Over. Porém nessa tela você pode andar de um lado para outro. Espere um pouco e uma caixa de diálogo aparecerá dizendo como você deve proceder para resetar seu jogo. Basta apertar o botão C (em qualquer momento nessa tela, não precisa esperar a caixa de diálogo caso não queira) e aparecerão as opções de voltar à tela de abertura ou recarregar o jogo do último save.

- Existe um easter egg envolvendo o 32X. Não vou contar aqui como nem quando nem o que acontece quando este ester egg é revelado. Se você tiver um 32X, jogue Pier Solar com ele plugado!

- Na tela de abertura, faça o seguinte código: cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, A, B, C. Deu pra sacar que o pessoal da WaterMelon brincou com o famoso código da Konami. Este código habilita o Sound Test (só efeitos). As músicas são habilitadas durante o jogo e acessamos através dos “goodies”, na tela principal (JukeBox).

- Se você estiver jogando com um controle de 6 botões, os botões X,Y e Z viram atalhos para determinadas funções no modo batalha, como por exemplo, fazer tudo igual à rodada anterior.

Defeitos inusitados

Nem tudo é perfeito. Além daqueles que são bobinhos, tipo ficar preso num “tile” por causa de um NPC coadjuvante, existem uns mais sinistros.

- Em Teusa, quando você comanda apenas Rudy e Kruller, você pode voltar todo o caminho até Reja novamente. Em Reja’s Farm, se você não teve a conversa com o fazendeiro para iniciar o minigame, Rudy faz o papel que seria de Edessot. E se no caminho você for falando com os outros personagens, todas as falas serão as de Hoston, seu filho e personagem principal no game.

- Próximo ao final de Point Zero, existe uma tela com muitos pilares antes de chegarmos ao Meteomobile e depois do pequeno labirinto. Há um conjunto destes pilares à esquerda onde é possível entrar na parede (como acontece em muitas partes do game).  Ao contrário das outras, essa não deveria existir. Ao entrar, ela permite que você ande “livremente” no mapa (sem colisão), mas ao fazer isso em qualquer direção, em algum momento (creio eu que estejamos nas extremidades do “tile set”) o personagem fica preso, aí só resetando o jogo. Caso você não ande o suficiente pra ficar preso, basta sair por onde entrou.

- Esta é mais grave de todas e me fez pensar por um momento que meu jogo estivesse com defeito. Lá pro final do game (cuidado, spoilers à frente), depois de derrotar Kleoneo, Hoston vai para uma falsa Reja. Ao encontrar sua mãe, jamais aborde-a da direita para esquerda. Rudy chega, fala seu diálogo e Hoston fica “preso” andando de um lado para outro. Percebi que Hoston não consegue “achar o caminho” até Rudy. Aí só resetando. Pensei em algum problema de compatibilidade com o 32X e depois com o Sega CD. Rodando no Mega Drive puro, a mesma coisa.  Depois de esquentar muito a cabeça, descobri que só devemos abordar a mãe de Hoston da esquerda para a direita ou de cima para baixo. O problema deste defeito é que você terá que enfrentar Kleoneo de novo, pois o último ponto de save é antes da batalha com ele.

Curiosidades sobre Pier Solar

- A princípio, Pier Solar seria um pequeno projeto de RPG independente para o Sega CD. Porém o projeto ficou tão grande,  trabalhoso e envolveu tantas pessoas que, ao invés de fazerem um jogo gratuito, resolveram que o jogo iria ser comercial. Nisso a mídia passou a ser o cartucho para evitar a pirataria e assim nasceu a WaterMelon Co., com sede na França.

- O projeto foi capitaneado pelo brasileiro Túlio Adriano e nasceu em um fórum sobre a Sega. Durante o desenvolvimento, um membro da equipe que cuidava dos gráficos se retirou e proibiu o uso de todas as artes feitas por ele. Disso, o jogo foi todo redesenhado e a história sofreu grandes mudanças.

- Todas as pessoas que investiram pelo menos US$ 50 no projeto quando estava em desenvolvimento receberam uma edição especial chamada 16 bit Posterity, que além do cartucho vem com o CD para uso em conjunto com o Sega CD. Além de seus nomes nos créditos ao final do game.

- Pier Solar detém o recorde de cartucho com maior memória lançado pro Mega Drive até o momento, com incríveis 64 mega. Devido à complexidade da placa do cartucho, “dumpá-lo” para obter uma ROM é muito complicado e até agora ninguém conseguiu. Mesmo que consigam, nenhum emulador terá suporte para rodá-lo, como afirmou Steve Snake, criador do Kega Fusion, um dos melhores (se não o melhor) emulador de Mega Drive da atualidade. Será necessário dar suporte a novos chips e ele não o fará sem a aprovação da WaterMelon. Só existe uma ROM beta, disponibilizada entre os envolvidos no projeto e que acabou vazando.

- A primeira tiragem teve três capas distintas, seguindo o padrão japonês, americano e europeu. Nas novas tiragens, chamadas de “reprint”, as capas são únicas. Porém, todos os cartuchos funcionam em qualquer Mega Drive/Genesis oficial da Sega de qualquer região.

- Em um ponto avançado do jogo, um NPC faz uma homenagem à banda americana de rock progressivo Dream Theater, citando parte da letra da música Pull me Under.

Dizendo adeus a Hoston e cia

Apesar de ser um game independente, Pier Solar não tem nada de amador. Pelo contrário, o profissionalismo e o esmero fizeram dele este sucesso que é. Tudo foi muito bem pensado, desde as embalagens ao jogo propriamente dito. Após cerca de 40 horas de jogatina, vi o final. E que final. Pra não estragar a surpresa, digamos que o final é assim, inesperado. Curti bastante e deu aquela tristeza de “já acabou”.

Antes de encerrar: o nome do Gagá aparece nos créditos como sendo o único e exclusivo tradutor para o português. Pode assumir Gagá: aqueles erros de português são tudo culpa sua! :D [Nota do Orakio: vai se catar, Piga! :P Taí a minha explicação para os erros: link]

Até a próxima!!!

About Piga "the ancient alien"

Gamer desde criancinha, teve tudo quanto é console e computadores antigos, dos mais populares aos mais obscuros. Pegou a doença do colecionismo, mas hoje está curado (em constante observação). Gosta de relembrar velhas histórias e compartilhar experiências. Sem "ismos", joga do mais antigo ao mais novo.