Academia Gamer: Review e rever

“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

Olá crianças!

Já falamos aqui algumas vezes sobre “resenhas”. Mas é interessante como muitas vezes a etimologia de um sinônimo estrangeiro sirva muito mais para clarear um fenômeno que queremos investigar. Isso não é de modo algum a demonstração de uma pretensa “superioridade” de algum idioma sobre outro: a questão é que cada mundo linguístico serve como o padrão por meio do qual vemos, entendemos e compreendemos o mundo que habitamos.

Ou seja, não é porque temos uma palavra como “saudade” que experimentamos algo que algum falante natural de inglês não possa experimentar plenamente. Ele apenas torna explícito tal sentimento de outra maneira.

Infelizmente, não tive como fazer uma busca da origem do termo “resenha” para poder tecer alguma comparação direta com a descrição daquilo que quero trazer aqui, mas se o fizer futuramente, certamente serão os primeiros a saber disso.

O que nos ajuda aqui é a origem latina tanto do prefixo como do radical mesmo da palavra inglesa. “Re-” tem o sentido de “novamente” e “view” tem uma história passando pelo francês antigo que, por sua vez, vem diretamente do verbo latim “videre”. Logo, “re-view” poderia ser traduzido, literalmente, como “re-ver”. 

E essa palavra tem dezenas de sentidos muito mais amplos que o simples sentido da visão que possuímos. Podemos dizer “você não vê?!” tanto para um amigo que não enxergou o mesmo que nós, como para alguém que não consegue entender nosso ponto de vista a respeito de algo.

Re-ver então envolve também conhecimento e reflexão. O “re-” de review tem relação direta com um “parar e pensar a respeito de algo”. É como se a pessoa se perguntasse: “Calma aí, o que foi que eu vi/entendi mesmo?”

“Mas que enrolação é essa Senil! Já usou vários parágrafos enrolando e não falou nada de games!”

Calma que chego lá, prometo.

Refletir é pensar sobre alguma coisa (voltar-se e debruçar-se sobre ela) e, por isso, envolve linguagem. Ou seja, quando realizamos esse movimento, pensamos acerca de algo por meio de nosso idioma. E, com base nisso, podemos tanto manifestar a outras pessoas o que pensamos por meio de um review verbal ou escrito.

Com base nisso, entendemos que review significa uma série de coisas concatenadas e sem contradição: refletir sobre algo visto e tornar manifesto o que foi visto para outras pessoas. E estas, vendo a reprodução do visto podem saber a respeito daquilo que nós descrevemos verdadeiramente.

O que quero dizer com isso?

Reviews de games não devem ter a pretensão de “apontar pontos positivos e negativos” como premissa. Isso é tecnicizar o processo todo. O problema central de todo re-ver passa por dois questionamentos simples e unidos: o que foi que eu vi?; como mostrar para outras pessoas o que vi?

Forçando um pouco a barra (e complicando toda essa discussão linguística), poderíamos até mesmo dizer que caçar aquilo que está bom e o que está ruim é uma “revisão” no mesmo sentido em que levamos um automóvel ao mecânico para passar por uma “revisão geral” antes de uma viagem.

Percebem que a perspectiva é completamente diferente? Na revisão o que importa mais é o olhar que deve ser minucioso, técnico e preciso. No re-ver (review no sentido de resenha) o que importa é o olhado que deve ser descrito com minúcias. No primeiro, podemos compreender bem a fundamentação do revisor e sua origem (linguística, cultural, pessoal etc.); no segundo, podemos compreender bem aquilo que está em jogo: um game.

Claro que é impossível dissociarmos o vidente (aquele que vê) do que é visto, mas em uma cultura tecnicista como a nossa, importa muito mais o “o que vamos fazer com isso?” do que “o que é isso afinal?”

Nas “resenhas” de games geralmente vemos algo muito parecido com uma revisão. Esses revisores querem simplesmente dizer para você a opinião e o julgamento deles a respeito de algo: se é bom, se é ruim, o que tem de positivo e o que tem de negativo. O verdadeiro resenhista não tem como objetivo primário estabelecer um julgamento: ele quer ver aquilo sobre o que fala com clareza e tornar igualmente claro a seus leitores/ouvintes essa mesma coisa.

O verdadeiro resenhista (reviewer) não tira o game de diante dos seus olhos e descrevendo como viu aquilo que viu, permite que outras pessoas vejam a mesma coisa que ele sem cegá-los por seu ponto de vista exclusivista e tecnicamente mais bem fundamentado.

Videogames são produções que exigem grande conhecimento técnico, mas não devem ser descritos como ferramentas.

E, para incitar outra reflexão, a palavra “revista” tem origem semelhante a “rever”. O que poderíamos tirar daí?

É isso que queria compartilhar com vocês essa semana!

Até o próximo post!

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.