Academia Gamer: Os Quatro Amores – Caridade (parte 05 de 05)

“Para quem quer fazer exercícios de reflexão”

 

Olá crianças!

Hoje é o último post dessa série especial do mês de Junho. Gostei bastante de revisitar o livro do C. S. Lewis e tentar fazer aproximações com games. É um exercício interessante e, acredito, serviu para a proposta da coluna que é discutir. É o mais rico dele por recuperar tudo que foi trabalhado antes e trazer uma série de reflexões novas e instigar seus leitores a agir (afinal, não basta “sentir” o amor). Tenho ciência de tudo aquilo que não falarei, mas saibam que o fiz unicamente para economizar espaço. Recomendo a leitura do livro, se quiserem maiores detalhes. Mas chega de enrolação e vamos lá!

Bem, segundo Lewis, os amores naturais (os três de que falamos até agora) não bastam a si mesmos: há algo a mais que “precisa vir em socorro do mero sentimento para que o sentimento mantenha a própria doçura”. Isso não significa que os subestime, mas pretende indicar onde está sua verdadeira plenitude. Usa a analogia de um jardim que só continua belo (e sendo o que é) se alguém se esforça para mantê-lo assim podando, cercando e regando. É verdade que as ferramentas de um jardineiro são mortas e estéreis em comparação ao jardim; e mesmo quando este alcança toda sua glória, o trabalho dele ainda é quase imperceptível. Afinal, ele somente estimula determinadas coisas e desestimula outras. Ainda que sua participação na beleza geral do jardim seja pequena, é uma tarefa indispensável e difícil.

Se entre Ryu e Ken há amizade e/ou afeição, é difícil dizer de pronto. Mas, será que há caridade neste amor entre eles?

A princípio, podemos descrever esta ação do jardineiro que sustenta o jardim como “decência e bom senso”, depois como bondade e, enfim, como toda a vida cristã. É preciso relembrar que Lewis converteu-se ao cristianismo (por meio de conversas com seu grande amigo Tolkien) para poder compreender melhor tudo que ele quer dizer com esse último amor. Imaginem que foi-nos dado um jardim e que devemos cuidar dele de acordo com nossa própria vontade; as ferramentas precisam ser usadas porque não atuam por si mesmas. Parte do objetivo dessa ética é liberar todo o esplendor de cada tipo de amor (ou seja, tornar cada um deles pleno) e não ser arrogante, estóico, e evitá-los. 

Ele critica argumentos teológicos que declaram ser preciso evitar dar nosso coração a coisas do mundo (a pessoas, por exemplo) porque elas morrem. Seguindo a argumentação, ele concorda que é algo lógico e que preza pela nossa segurança pessoal (feridas não são só na pele, não é verdade?), mas que isso acusa como erro em sua própria consciência. Segundo ele, isso é um resquício pagão por ser muito mais próximo do estoicismo e do misticismo neoplatônico do que da caridade.

Lewis afirma que não existe método seguro no que tange ao amor: “amar é sempre ser vulnerável. ame qualquer coisa, e seu coração certamente vai doer e talvez se partir”. Se alguém deseja mantê-lo intacto, não pode entregá-lo a ninguém (nem mesmo a animais), guardando-o em seus hobbies e luxos, evitando envolvimentos e guardá-lo em seu próprio egoísmo. Porém, nesse bunker o coração muda: não se parte, mas se torna indestrutível, impenetrável e irredimível. Isso significa que, sem meias palavras, “a alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno”. Com isso em mente, afirma que até amores mais desgovernados estão mais próximos da vontade de Deus do que a sua ausência; engana-se quem pensa que a entrega a Deus ocorre para evitar sofrimentos intrínsecos ao amores -  na realidade, é o único caminho que nos afasta totalmente dEle. Embora, para Lewis, “o melhor amor, de qualquer tipo, não é o cego”.

Todos aqueles que lutaram pelas “ruas de fúria” com “punhos nus” certamente se amam de alguma forma. Mas teriam algo de eternidade neles, devido à caridade?

 

Sendo Deus amor, Ele é primordialmente um amor-doação: não existe nEle qualquer necessidade a ser preenchida, somente abundância doando-se a si própria. E é nisso que está a essência da caridade: é por esse amor-doação que nos é dado pela Graça possui o nome do amor que estamos pensando hoje. [Nota em off: podem relembrar um pouco o que é amor-doação e amor-necessidade lendo o primeiro post  sobre este tema clicando aqui]

E é por meio desse amor que nós, seres humanos, podemos também amar aquilo que não é naturalmente amável: criminosos, inimigos, idiotas, ressentidos, arrogantes e cínicos. Ou seja, podemos doar amor aos que não nos são amáveis naturalmente. Mas a caridade também envolve uma porção de amor-necessidade. Às vezes, precisamos da caridade de outros que, possuindo este mesmo Amor Absoluto, ama o não-amável. Precisamos deste amor, mas não o queremos; afinal desejamos ser amados por nossa inteligência, beleza, generosidade, bondade e utilidade. É um choque quando alguém o nos oferece. Por esta razão que, segundo Lewis, muitas pessoas maldosas fingem caridade por saberem que ela nos fere naturalmente: “Essas palavras não seriam ditas com falsidade para ferir se não ferissem quando verdadeiras.”

Será que Rhys, ao encontrar Mieu pela primeira vez, amou-a com caridade?

 

É muito difícil receber e continuar recebendo dos outros um amor que não depende de nossos atrativos. Ele usa um exemplo extremo para ilustrar isto. Imagine que logo depois de casar você contrai uma doença incurável que o permitirá viver bastante, mas inútil, impotente, repulsivo, dependente da renda de sua mulher, dominado por ataques de fúria e exigências imperativas. Ao lado disso tudo, sua esposa tem compaixão e dedicação inesgotáveis. Certamente que aceitar e receber tudo isso e abster-se de autodepreciações e exigências de carinho e consolo é algo que o amor-necessidade em sua condição natural não seria capaz (assim como o amor-doação desta esposa dedicada). Receber, neste caso, é mais difícil do que dar. Seja afeição, amizade, ou eros (ou os três).

Todos nós recebemos caridade e há algo em cada um de nós que não pode ser amado naturalmente: não é um defeito que outros não nos amem. Mas ainda assim recebemos perdão, misericórdia e amor por esta mesma caridade. Bons pais, esposas, maridos e filhos sabem que a recebem gratuitamente com certeza: “não estão sendo amados por ser amáveis, mas porque o Amor Absoluto está naqueles que os amam.”

Para Lewis, aceitar a Caridade divina é necessário para que haja esta transformação dos amores naturais. Porque, insuficientes a si mesmos, são chamados para serem modos da caridade, ao mesmo tempo em que continuam sendo o que sempre foram. E, nisso, tudo é transformado: um jogo, uma piada, um drinque entre amigos, uma caminhada e o ato sexual. Tudo isso pode ser modo de perdoar, de aceitar perdão, de consolar, de reconciliar, de “não buscar nossa própria glória”. Contudo, a transformação total é muito difícil e talvez nenhum homem decaído a atinja com perfeição. Uma pena é a existência daqueles que pedem perdão desnecessariamente, ou que perdoam orgulhosamente. A verdadeira obra da caridade (e, portanto, de todo amor natural transformado por ela) deve ser secreta e, se possível, até para nós mesmos. Às vezes jogar cartas e dormir podem ser as melhores obras do amor.

Nei, ao ser acolhida por Rolf, amou e foi amada com caridade?

O convite a esta transformação nunca é omitido no nosso dia a dia: aparece sempre em nossas frustrações com que nos deparamos em cada amor natural, quando vemos que não são suficientes. A necessidade de praticar paciência, tolerância e perdão é o que nos obriga a tentar transformar nossos amores em Caridade. Por isso, aborrecimentos são sempre benéficos: quem não sofre no amor, não pode percebê-lo. A citação do grande poeta Donne que abre o livro pode ser alargada para todos os amores e sintetizar isto muito bem: “que nossas afeições não nos matem, nem morram.” Os amores naturais só podem ter esperança de caridade na medida em que se permitirem ser assumidos pela eternidade da caridade.

E quanto a formas de pensarmos isso aplicado aos games? Os exemplos aqui serão limitados (e pouco fortes) porque, como vimos, a execução verdadeira da caridade é rara e muito difícil, mesmo no mundo real. Mas podem servir de ilustração, pelo menos.

O primeiro, e o mais emblemático que me vêm à mente, é o amor entre Rolf e Nei em Phantasy Star II. Embora seja possível especular se houve afeição, amizade ou eros (ou todos eles), a caridade me parece evidente. Se tiveram a oportunidade de jogar o Text Adventure da Nei, verão que Rolf ajuda Nei apesar dela ser uma mescla entre biomonstro e humano. Não é porque viu “algo de bom nela, apesar de tudo”: doou seu amor a ela sem qualquer “razão” justificável. Ou seja, talvez tenha havido caridade dele com base no amor-doação e, por parte dela, de amor-necessidade (pois ela precisou aceitar este amor que recebia de graça e não pelas suas qualidades).

Elwin, ao escolher proteger Liana, fê-lo por amor. Mas estaria este banhado pela caridade?

 

Outro que me ocorre é o amor entre Elwin e Liana em Langrisser II (ou Der Langrisser). Elwin a ajuda, não por ser uma amiga de infância sua (como justifica Hein para si mesmo) e, acredito, não pela sua aparência. Mas por ela não poder se virar sozinha (o que seria um “defeito”) e precisar de ajuda. Ele doa seu amor a ela que, por sua vez, o aceita. Claro que a certa altura ela passa a ser companheira e luta a seu lado, mas se a caridade era real, ela sustentaria a eternidade de seu amor natural, seja ele qual fosse (afeição a princípio e amizade em seguida, pelo que pude perceber).

Estes são os que me parecem mais claros dentre todos os que comentamos durante os três outros amores. Coloquei imagens de algumas de suas sugestões (escolhidas ao acaso – e conforme a facilidade de encontrar boas figuras) e outras de jogos que citei (ou pensei) durante os posts como formas de interrogação. Se perceberam as legendas, coloquei-as mais para pensarmos juntos e discutirmos durante os comentários como sempre temos feito.

Bem, é isso por hoje. Até o próximo post!

About Senil

Escritor e ouvinte de música em tempo integral que joga menos videogame do que gostaria. Fez miraculosamente uma dissertação de mestrado sobre Phantasy Star que praticamente ninguém deve ter tido paciência de ler.